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Temporada 2 : Viu

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T2 : Viu

474 JACARÉ – COPACABANA: O auto da linha do inferno

Por: Gabriel Weber 28/07/2023

O 474 (lido quatro-sete-quatro) é uma linha de ônibus que roda no Rio de Janeiro 24h por dia, sete dias por semana. Em dias úteis e/ou sob tempo nublado, o trajeto de 1h30 segue seu desígnio: alimentar os bairros ricos da cidade com mão de obra barata de bairros falidos da zona norte e do Jacarezinho, uma das mais miseráveis favelas cariocas. O ônibus integra a circulação de serviço do Rio Maravilha e uma rotina vivida de pé: dos balcões dos restaurantes e lojas, do alto do cabo de vassoura e da tábua de passar dos patrões.


Circulação servil. Autor: Gabriel Weber.


Nos finais de semana de setembro a março, quando o Sol passa a queimar, a linha escapa à lógica servil: inverte a sua função, servindo ao transporte dessas populações subalternizadas às praias de Ipanema e Copacabana, na zona sul da cidade. 

A minha relação com o 474 está ligada a ambos os tempos. Descobri-o pela rotina do trabalho, quando era cooptado como office-boy da minha mãe durante as longuíssimas greves escolares. Era com ele que eu descia cheio de apólices da minha casa, num desses bairros falidos colados ao Jacarezinho, até o Centro e Copacabana. 

Num segundo momento, revelou-se seu tempo de arruaça, já em tempos de faculdade, quando a grande maioria dos amigos morava na zona sul e a praia era o espaço primordial do rolé. Foi num domingo de tarde, fim de semestre, janeiro, também graças a uma greve, que encontrei uma amiga para terminarmos um trabalho juntos. Esbaforido e descabelado ela me perguntou o que tinha acontecido: — tive que pular da janela do 474, hoje não aguentei. Nada que abalasse minha relação com a linha, reencontrada sob as mesmas rotinas todos os verões desde que me mudei para Portugal.


O Rio do 474. Autor: Gabriel Weber.


As caravanas. Autor: Gabriel Weber.


O 474 faz parte de um universo de linhas de ônibus norte-sul encaradas como problemáticas. Cruzando os túneis sob a floresta, lotadas de pretos e pobres do outro lado da cidade, são assumidas como os vetores de arrastões[1] que perturbam o lazer sagrado da praia-ao-fim-de-semana-das-gentes-de-bem. Caravanas de Chico Buarque circunscreve bem este recorte espaço-temporal.


Arrastão - Recusando uma lógica maniqueísta e encarando o 474 como um antiherói complexo era primordial analisar os arrastões sob a cadência sequencial do trajeto. Autor: Gabriel Weber.


A apropriação destes ônibus como meio de acesso ao lazer encontra uma de suas principais razões no desenho metropolitano da balneabilidade. A ausência de águas limpas no interior da Baía de Guanabara, condenada a reservatório de esgoto, força o êxodo pendular em busca do refresco.


Copacalama - © O Globo, 22/10/2015.


Ir até o mar exige dinheiro, condição facilmente contornável por calote. No entanto, conseguir embarcar não significa necessariamente chegar à praia. Todos os anos o governo põe em prática a Operação Verão. Suas blitzes materializam barreiras migratórias metropolitanas em pontos estratégicos do trajeto, principalmente acesso aos túneis, estrangulando a passagem. O controle tem seus alvos estampados em letreiros e cor da pele específicas. E assim, um protocolo é repetido: o veículo é parado e a polícia sobe a bordo, invariavelmente fazendo descer todos os homens negros do veículo. Para passar são necessários:


1. Dinheiro da passagem de volta;

2. Carteira de identidade;

3. Carteira de trabalho - esse documento bem brasileiro em formato de passaporte onde seu patrão assina seu regime de trabalho. No Brasil, precarizado e informal cruzado pelo 474, trata-se de uma uma peça anacrônica.


Blitz: o camburão como fim da linha. Autor: Gabriel Weber.


Tais condicionantes, quando encaradas em paralelo às agruras dos enormes trajetos cata-corno[2], quentes e caros, denunciam um cerceamento do lazer periférico por um desenho necropolítico consciente e articulado.

A arruaça do 474 no Verão faz parte do calendário da cidade. A linha do inferno é personagem fixa e tem sua fama, construída majoritariamente pelo rastro de assaltos que o ônibus deixa pelo caminho. Moradores já se uniram em abaixo-assinados e “grupos de zap” pelo bloqueio e encurtamento do cavalo de Tróia do Jacarezinho.


Brasis: O 474 e a motociata bolsonarista do Bicentenário da Independência (1822-2022) - © Lola Ferreira.


Todo mundo conhece o 474. De fora.


A perspectiva dos relatos sobre a linha é quase sempre externa, construída sob duas óticas não excludentes. A primeira relaciona-se ao distanciamento do espaço do veículo: alguém que estava no ponto[3] à espera de um outro ônibus e viu uma gangue pular pela janela; alguém que viu/ouviu o veículo se aproximando e rapidamente se escondeu dentro de uma loja. As imagens produzidas sobre o ônibus introduzem um outro grau de apartação: as câmeras são apontadas de longe, sejam de cima, das janelas dos apartamentos, sejam por trás do filtro das grades dos edifícios. Estabelecem assim uma clara separação entre um nós, civilizados, que observa os subumanos de uma posição encastelada. A visão sobre a linha é, assim, sempre mediada por uma interface: a tela do telefone, a página do jornal, ou as verticais dos gradis. As representações são igualmente restritivas geograficamente, invariavelmente realizadas na zona sul da cidade onde o 474 é tomado como corpo estrangeiro.

Um segundo entendimento sobre externalidade relaciona-se com a rotina da linha. Dentre todas as matérias escritas sobre o 474, poucas se baseiam em relatos de quem viajou nele. Quando o são, parecem introduzir uma completa mudança de paradigma. Entretanto, acabam por cristalizar a visão de um dia, limitante e incapaz de traduzir as camadas de leitura que operam sob a rotina das viagens à praia no sábado de Sol. 

Crescendo ao lado do Jacarezinho e em frente ao ponto de ônibus, sou cria [4] do 474. Assim, a inquietação que motivou o trabalho “474: JACARÉ - COPACABANA: o projeto de uma linha”[5] prende-se justamente com a parcialidade e unidimensionalidade pela qual o ônibus é retratado pelo imaginário carioca. Mais do que a figura bidimensional de uma linha que conecta dois pontos do Rio, é importante perceber o 474 como um sistema de tempos e espaços relacionais, significantes de um desenho multiescalar de segregação.

 

“O projeto colonial não é um projeto vitorioso exatamente porque os subalternizados conseguem incessantemente transformar esse projeto de extermínio em jogo” (Simas, 2020).


O discurso do meu trabalho é construído de maneira episódica e sequencial, a partir dos eventos no trajeto da linha em um sábado de Sol. O sábado de Sol não tem data específica, tratando-se de uma dimensão temporal construída pela repetição cíclica do 474 como caravana[6] ao longo dos verões. Esta heterotopia foi confirmada sob três frentes: de um lado a memória pessoal da experiência de repetidas viagens prévias e um período de pesquisa de campo especificamente dedicada ao trabalho. A segunda através de conversas, com diferentes personagens/passageiros: banhistas, assaltantes, motoristas e fiscais da linha. E a terceira, os relatos da imprensa. A pesquisa em hemerotecas confirmou o sábado de Sol do 474 como evento dos verões da cidade desde 1984[7], data em que foram relacionados pela primeira vez pela imprensa violência, praia e 474.


474: sábado de sol. Autor: Gabriel Weber



Esquema com as "paragens" do 474. Autor: Gabriel Weber.


A Rita e Giuliana foram à minha prova de mestrado e acharam boa ideia me chamar para participar na temporada. O convite delas prende-se, no entanto, mais ao método que permitiu dar corpo a esse trabalho de arquitetura. Assim, pularei uma explicação mais detalhada dos episódios, que podem ser consultados na dissertação, e falarei da doiderinha que foi fazer este trabalho.

Se à partida a intimidade com o objeto de estudo pressupunha uma vantagem, pairava o risco de ser viciada. Depois que vim morar em Portugal, o encontro com o 474 passou a ser só uma vez por ano, sempre com as mesmas rotinas e personagens. Mesmo assim, percebi que era fundamental garantir um distanciamento para uma leitura conjuntural que ultrapassasse o registro da recolha folclórica de histórias sobre a linha. 

É certo que a tradução das viagens para o suporte papel-90-páginas-A4 apresenta a desvantagem da perda das sonoridades e conversas entreouvidas. Era portanto fundamental que o texto permitisse a construção de imagens mentais também pela palavra. Assim, a adaptação a vocábulos do português europeu, algo como dizer gajos a promover algazarras no autocarro configuraria uma total deturpação. O reconhecimento do calão como dimensão inalienável do trajeto era fundamentalmente necessário na tradução e compreensão da espacialidade do objeto em estudo. 

O trabalho começou a ser escrito na Europa: primeiro como um ensaio exploratório[8] para a Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP), desenvolvido em seguida num artigo[9] durante o meu Erasmus em Paris (ENSA-PB), que estabeleceu as bases para a conclusão da dissertação em tempo hábil. A distância, física e cultural, dos interlocutores com os quais o trabalho era discutido, sumarizada pela imagem mental da pronúncia de Jacarr(...)rrê, permitiu a desnaturalização crítica das práticas da linha, que devido à familiaridade me passavam despercebidas. 

Paralelamente, tal afastamento conduzia a um esfriamento pasteurizado da realidade, empobrecedor das camadas de leitura que operam sobre os episódios do ônibus. Era, portanto, crucial que o trabalho passasse pelo choque de realidade e encontro com o objeto à escala 1:1. Na primeira viagem de 474, tudo o que eu tinha já pensado foi desembaçado, como se as imagens tivessem sofrido um súbito aumento de saturação. Tudo era mais tenso, mais violento e mais frenético do que eu lembrava.


O Cara me encara sem parar, medindo e orçando o que estou vestindo. Sei que ele quer me assaltar. Começa a falar que não vê a mãe há doze dias e que tem que encontrá-la na Central para ir à casa. Falo que o ônibus não passa mais na Central, mas passa perto e digo onde ele tem que saltar. Ele então pede meu telefone emprestado para uma ligação, clara estratégia para me roubar. Mostro meu telefone de guerra, um Iphone SE todo arrebentado.

— Porra, velhão! Isso daí ainda liga?

Ele pergunta onde moro. — Riachuelo, o que faz com que seu semblante mude. Adianto-me e falo aos três que preciso da ajuda deles para terminar meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) sobre o 474. Começo pelo cara:

— Você pega o 474 pra quê, pra ir à praia?

— Não! eu pego pra roubar mesmo. Pode anotar aí, pra r-o-u-b-a-r. Desço no posto 4 [em Copacabana] e vou andando até o 12 [no Leblon].

As outras passageiras riem da honestidade. K. intervém:

— Sai dessa vida, otário. Depois que roda é feião pra nossas mães que têm que ficar naquela fila, tomando mãozada na xota pra catar telefone. Eu também já caí já, mas esse telefone [tira um telefone do bolso, que mal cabe na mão] eu comprei com meu suor. Tu já caiu também?

O Cara levanta do banco e suspende a camisa. Em letras garrafais, tatuado no peito, está lá escrito: 157 - do artigo do Código Penal para roubo. Com isso, sinto o baque de ter chegado ao Rio de sempre. Lembro de uma música que eu ouvia direto na linha, quando ainda estava na escola: Virei celebridade no Leblon roubando gringo, clássico da rádio Mandela Digital.


Houve o baque das dimensões ignoradas: a viagem à praia é suada, o chão é pegajoso. A cerveja que vendem fica choca[10] num piscar. Tudo isso misturado ao cheiro de água oxigenada que vem de lá de trás - salão de beleza improvisado onde se efetuam o nevou[11] do verão e ao gosto do picolé de chiclete da marca Colegial, que eu fiquei feliz em reencontrar e que definitivamente não me iam aparecer na biblioteca da FAUP. 

Havia tanto para ver que era necessário saber selecionar o que se ver. Assim, o desenho valeu-se como principal ferramenta de investigação e confrontação destas dinâmicas espaciais que de tão hiperrealistas beiram a surrealidade. Desta forma, enxergar com as mãos apresentou-se sobre uma operacionalidade tripla: inquirir os espaços, articulá-los e representá-los. A direção estruturante do trabalho, uma linha traçada do Jacaré ao mar, implica uma recusa à posição de neutralidade, motivada precisamente pela construção de um corpus gráfico centrado sobre aqueles que não têm direito à praia, contraposto às representações estabelecidas pela narrativa dominante.


A cabine do fiscal do 474. Autor: Gabriel Weber.


O fiscal do 474: Seu Edson. Autor: Gabriel Weber.


Como bem apontado pelo Cara que queria me roubar, meu celular estava em fim de carreira e eu não tinha uma câmera fotográfica boa. Aliás, se eu chegasse com uma Canon, do alto da minha palidez vinda do inverno europeu, só faltaria o conjunto de linho bege para o uniforme National Geographic ficar completo. Os instrumentos de pesquisa eram assim: dois cadernos, um de bolso para diálogos e um A4 para desenhos, uma maquininha fotográfica descartável de 30 fotos, 10 reais pra ida e pra volta (se bem que a partir de um certo momento eu passei a viajar de graça: vantagens da pesquisa) e minha carteira de identidade. Entretanto, pelo privilégio de ser branco esse era o menos necessário dos itens, visto que minha aparência valia de laissez-passer pelas blitzes da Operação Verão.

Paralelamente, era preciso garantir a leitura multiescalar do trajeto da linha. O layout e estrutura dos ônibus do Rio de Janeiro são muito específicos, máquinas do desconforto e maximização dos lucros. Assim, era essencial efetuar levantamentos in loco. Corridos e intermitentes, realizados na pausa do cafezinho dos motoristas no ponto de partida.


Levantamento de campo. Autor: Gabriel Weber.


Transposta para o papel, a pormenorização técnica da barca do inferno deixa evidente que o desconforto é uma perversidade de desenho. “Tudo é projeto”, dizia Paulo Mendes da Rocha, até filha-da-putice.

A representação, para além de método, tornou-se ela própria objeto do trabalho. Norteada por um raciocínio de leitura de projeto, era fundamental dominar os espaços e escalas da linha com o rigor da disciplina. Assim, os depoimentos visuais e escritos, pessoais e de terceiros eram vertidos em axonometrias sínteses. 

Por sua vez, os vetores do desenho técnico impessoalizam e sintetizam demais os episódios em que tudo se passa ao mesmo tempo. Ora, se a investigação parte de querer mostrar a linha de dentro e como habitué, mostrou-se imprescindível o registro articulado com perspectivas. 

Os diálogos com as diversas partes envolvidas nas viagens foram fundamentais para que o desenho se expandisse para além daquilo que era possível apreender pela experiência própria. Era fundamental garantir uma forma de representação que permitisse a empatia de olhar e dar a ver a partir do relato do outro. Assim, a manipulação dos pontos de fuga e enquadramentos procuram responder à tradução e ao registro da apreensão espacial dos diferentes atores envolvidos no trajeto. Revelar o interior do 474 pela produção gráfica desenhada era também imperativo pela absoluta impossibilidade de se usar gravar ou fotografar dentro do ônibus, uma vacilação[12] maior imperdoável ao regimento interno não escrito, mas sabido por aqueles que frequentam a linha.

Apesar da força do discurso gráfico, o trabalho não é um atlas, uma vez que recusa a “imanência flutuante das imagens” (Silva, 2013, p.13) em que o discurso gráfico inicia e encerra sua trama associativa sobre si mesmo. É a partir da autonomia da representação arquitetônica que se articulam e sugerem hiperligações entre a especificidade do objeto e os tempos e espaços longos onde se insere. 

Além disso, o 474 tem episódios e trajetos cristalizados e sobretudo vigiados, excluindo assim a possibilidade de deriva, tanto na estrutura do trabalho quanto na cidade por ele percorrida. Entretanto, admite-se o paradoxo que alimenta a investigação: como o desenho das formas de arruaça sobre o controle não é ela mesmo uma forma de controle? A representação não poderia reproduzir tal restritividade. Dessa premissa pretende-se que os desenhos não se encerrem sobre si, como reprodução em polo oposto do que já fazem os celulares dos cidadãos-de-bem de Copacabana e as matérias do Globo.

Por consequência, as colagens de desenho e fotografia confirmaram ser uma potente ferramenta de tradução e rearranjo sintéticos das múltiplas camadas de leitura sobrepostas no trajeto, produzindo “imagens abertas em que todos os outros lugares reais dessa dada cultura podem ser encontrados, [...] simultaneamente, representados, contestados e invertidos” (Foucault, 1967, p. 46-49). Neste sentido, a conjugação ao desenho vetorial permite uma possibilidade de expressão da polissemia dos episódios sobre o espaço em movimento do ônibus e da cidade que ele cruza.


O surf rodoviário: lazer kamikaze e contorno à superlotação. Autor: Gabriel Weber.


Em diversos momentos do trabalho, houve a tentação da elaboração de um projeto, um porto seguro disciplinar. Primeiro, como uma grande piscina pública no Jacaré, que ignorava a luta pelo deslocamento na cidade e o direito ao banho em Ipanema. O sítio seria então o momento apoteótico da linha: a chegada ao mar. Houve um ponto limite de preparar as peças da maquete de entorno do que seria o-grande-terminal-do-474 na zona sul. Um esboço de programa: balneários, fábrica de gelo, rede para os motoristas.


Sorte daquele que tem orientadoras atentas.


Seria mais um projetinho. Por mais democráticas premissas que tivesse seria uma arrogância naïf em querer responder à linha por um plano e por matéria. Seria, em último caso, secundarizar o trajeto, tema principal, a um lugar de análise da preexistência que dá caminho a um grande projeto redentor.

O desenvolvimento do discurso sobre a linha demonstrava cada vez mais a impossibilidade de proposição de um projeto democrático, porque é inconcebível a existência de um 474 numa realidade democrática. A vontade de catarse arquitetônica deveria então abandonar a razão instrumental do projeto e ser encarada sob a ótica da representação, ferramenta que atravessa todo o trabalho.


“Os arquitetos aprendem e trabalham com representações, muitas vezes vistas como ‘não a coisa real’, provisórias ou falsas. No entanto, a representação não é apenas um substituto para um edifício, que pode surgir um dia - é também uma ‘coisa’ por direito próprio e um local de experimentação, tanto quanto um mundo ou modo de ser como tijolo e argamassa” (AR, 2021, p.6).


Epílogo: o projeto de um linha. Autor: Gabriel Weber.


O ponto final é uma rua sem saída. Por mais que avance em direção ao horizonte, a meia volta à terra firme e ao Jacaré são certos. Nessa dobra, o motorista desliga o veículo, roda a chave e sai. Com a calça já levantada para espantar o calor do motor, senta-se à borda da estrutura, numa pausa antes de fazer todo o trajeto de novo, uma outra vez pelo mesmo caminho. Queria ele continuar ali, sem retorno, num Sábado de Sol eterno. 

A volta para casa garante a praia do próximo fim de semana e do próximo verão. A ciclicidade das caravanas é parte do jogo da cidade, eterno passado-presente sob o qual são construídos os espaços do Rio.

 

Dessa forma, pode-se apontar que a autonomia semântica da representação permite libertar o aparato de subversão dos usuários do 474 da dimensão do veículo e compreendê-la em suas diferentes dimensões espaço-temporais como um contra-projeto. Tal autonomia, expressa localmente pela figura do ônibus que transborda gente rumo à praia prometida é recurso inalienável e último à sobrevivência e direito à cidade.

Assim, os instrumentos da arquitetura devem ser chamados a revelar as ferramentas de resiliência das periferias em relação aos espaços asfixiantes que lhes são impingidos. É saber-fazer de onde será possível informar o desenho para o sabotamento e desmantelamento das estruturas coloniais e uma cogitar a possível construção da democracia.



Referências


Buarque, C. (2017). As Caravanas. Caravanas [Álbum]. Rio de Janeiro: Biscoito Fino.


Coelho, T. (outubro de 2015). Capitães de Areia, um dia quente dentro dos ônibus que ligam o suburbio à zona Sul Carioca. Revista Piauí Online, 109. https://piaui.folha.uol.com.br/materia/capitaes-da-areia/.


Deutinger, T. (2018). Handbook of Tyranny. Zurique: Lars Müller Publishers.

Editorial. (novembro de 2021). The space between pages. Architecture Review, 1486. Londres: AR.


Foucault. M. (1967). Of Other Spaces, Heterotopias. Architecture, Mouvement, Continuité, 5. Paris: Moniteur. 


MC Vitinho. (2013). Virei celebridade no Leblon roubando gringo. Em Cheio de Ódio [Álbum]. Rio de Janeiro: s|g


Simas, L. A. (convidado) e Eduardo Somini (anfitrião). (19 de dezembro de 2020). Brasil institucional vive em guerra com a Brasilidade [episódio de podcast]. Ilustríssima Conversa. F. de São Paulo. https://open.spotify.com/episode/5MBa27H3scJQxncrJWiyq4


Santini, D., Santarém, P. e Albergaria, R. (org.), (2021). Mobilidade Antirracista. São Paulo: Autonomia Literária.


Simas, L. A. (2019). O corpo encantado das ruas (7ªed.). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.


Silva, V. (2013). Atlas como paradigma de investigação em desenho? Psiax, 2, II Série. Porto: FAUP, FBAUP e EAUM.

[1] Roubos coletivos organizados sob uma avalanche humana que toma tudo pela frente.

[2] Caminhos desenhados de maneira a recolher o máximo de passageiros possível, não necessariamente o mais lógico entre um ponto e outro.

[3] Paragem do autocarro, em português europeu.

[4] Alguém pertencente e conhecedor dos códigos do território.

[5] No seguinte link está a minha Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura apresentada à Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto.

[6] Na acepção da música de Chico Buarque previamente citada: ônibus que saem do subúrbio rumo às praias nos finais de semana; se você deixou a referência passar aqui vai de novo. Ouça a música aqui.

[7] Repressão a Ladrões de Praia prende 50 banhistas. © O Globo, 26/03/1984.

[8] Realizado sob orientação de Álvaro Domingues e Ana Fernandes no primeiro semestre de 2020-2021.

[9] Redigido sob coordenação de Cristiana Mazzoni e contributos de Jean Attali, Mete Kutlu e Christelle El Hage, inserido na unidade curricular Seminaire: Métropoles en Mirroir, cursada no primeiro semestre de 2021-2022.

[10] Quando as bebidas gaseificadas perdem o gás e/ou não estão frescas.

[11] Descoloração completa do cabelo com água oxigenada. Antes conhecido pejorativamente como louro-pivete, virou tendência mainstream no verão de 2013.

[12] Uma gafe, uma falha.

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