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Temporada 2 : Viu

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T2 : Viu

Encontrar, olhar, imaginar e conhecer

Por: Giuliana Almasio 17/05/2023

“Viu” é um verbo transitivo e está no pretérito perfeito. Contém três letras e está na terceira pessoa do singular. Alguma coisa foi vista por alguém. Num dicionário online encontro 19 significados para ele. Neste texto precisei de: encontrar, olhar, imaginar e reconhecer.


Encontrar


Da última vez que fui ao Rio de Janeiro trouxe um disco de vinil “Tim Maia 1970” e um “Clube da Esquina”. Por meses estive a encarar os retratos das capas porque não tinha onde ouvir. Notei que os limites da fotografia do Tim Maia excluíam a forma do seu cabelo. Sei que era crespo e volumoso. Poderia ser essa a razão da omissão?

Procurei no Marketplace do Facebook por algum gira-discos usado que coubesse no meu orçamento e o Sr. Abílio tinha um anúncio a 5km da minha casa. Entramos na Passat, eu e o Xavier. Quando o Google Maps acusou o fim da viagem, notamos que o ponto de encontro era na garagem do vendedor. Tinha sido transformada numa espécie de loja de segunda mão para convidados, quase um museu particular. Um portal para o século XX em Gaia.

Digo algo como: “Olá! Boa tarde, Sr. Abílio. Está tudo bem consigo? Peço desculpas pelo incômodo… Com licença.”, extrapolando os meus bons modos para compensar o meu sotaque brasileiro. Entramos.


Olhar


Ouvindo os gritos abafados da Cyndi Lauper ecoarem pelo amplificador comprovamos que o gira-discos funcionava. Não lembro a música, nem se era realmente da Cyndi Lauper. Só tenho certeza que era um daqueles discos “The Best Of 80's Songs”. Talvez “70's". Aproveitei enquanto o Xavier se lamentava da má qualidade do som do baixo para espreitar o resto das bugigangas.

A Sul vejo uns penicos esmaltados e enferrujados. A Norte, uns candeeiros de teto que faltavam algumas lâmpadas e cristais. A Noroeste fixei o olhar: uma fileira de máquinas fotográficas, todas analógicas. Troquei as duas notas de cinco euros que me restavam por uma Olympus. Era um modelo quase homônimo do herdeiro do Twitter, o baby Tesla, filho da Grimes. Com letras e números que não lembro. No fim da negociação, o Sr. Abílio diz que a máquina tinha um fecho que estava emperrado e por isso seria vendida já com um rolo dentro.

O visor da máquina mostrava três fotografias feitas, o que me levou a crer que havia comprado a máquina com quase um rolo inteiro de graça. Fiz autorretratos, fotografei detalhes da casa e os gatos. Mandei revelar.


Imaginar


Aqui no Porto, pelo que me contam, há cerca de uma década voltou a moda das fotos analógicas. O que custava nada começou a ficar caro, como já prevê a lei da oferta e procura. No meu segundo ano a morar aqui ganhei um rolo de presente e comecei a arriscar uns cliques numa máquina antiga do meu pai. Acabei por ficar viciada na coisa. Ter que pensar antes de apertar o botão enquanto prendo a respiração para estabilizar a imagem, perceber as diferenças dos tons das películas conforme o fabricante, compor todo esse ritual meticulosamente e, no fim, disponibilizar-se à mercê da agenda de quem for revelar o rolo. É nesse hiato de tempo que a imaginação começa a agir: recrio os enquadramentos e momentos de disparo do gatilho da máquina. Idealizo as imagens resultantes. Caminho tonteando entre o que vi, fotografei e imaginei. Três imagens da mesma coisa alugaram espaço na minha cabeça. Estão sobrepostas, confundo as suas naturezas, questiono a minha memória e o seu poder de documentar os fatos. Migro esse poder para as fotografias que estão mergulhadas no escuro de algum laboratório improvisado.


Reconhecer


Vou repetir. Com o resto dos cliques da máquina que comprei do Sr. Abílio, fiz autorretratos, fotografei detalhes da casa e os gatos. Mas não foi isso o que recebi por e-mail. Por instantes pensei que o funcionário do laboratório tivesse feito confusão. Não reconhecia aquelas imagens, ou as pessoas nelas. Entretanto, no canto das últimas fotos do rolo, vi alguma coisa familiar. Como é possível? Não recebi o que imaginei, sendo que a minha imaginação foi delimitada pela minha memória visual. Eu enlouqueci ou subestimei o poder da fotografia? 

Aquelas imagens eram doces e perturbadoras. Descobri que um álbum de família pode ser fantasmagórico e até mesmo plural. Olhar para aquilo me fazia sentir a violar os sonhos de alguém dentro do meu próprio sonho. Era onírico, ao mesmo tempo macabro. Esse é um mal deste rolo ou da fotografia no geral? Fui obrigada a migrar do design para a geologia para tentar perceber quantas camadas de história continha. Contei pelo menos até três.




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