Falando de ver, podemos, e talvez seja esse o nosso primeiro impulso, decidir falar sobre o que apreendemos fisicamente e está no nosso raio de percepção no presente. Podemos também escolher falar sobre memória, o que vimos outrora e foi sendo moldado como matéria pelo tempo, tornando-se agora num outro tipo de visão, uma que regularmente se sobrepõe à visão do momento, que a deturpa, ou que revela que houve algo onde agora não há nada.
Ou então falar sobre escolha, sobre como o processo de ver assenta em primeiro lugar num estímulo e depois numa decisão, decisão essa que envolve variáveis de disponibilidade, vontade e desejo. E pensando em visão num contexto comunitário, talvez não possamos escolher o que ver no nosso dia-a-dia – seja porque nos ultrapassa e não o controlamos ou porque a nossa rotina nos limita – mas cada vez mais é evidente como é um privilégio poder escolher onde ativamente colocar a nossa atenção. Falando desse mesmo contexto mais alargado, a nossa percepção daquilo que assimilamos informa as nossas ações. Mas como formamos essa percepção?
“A leitura do mundo precede a leitura da palavra” [1], propunha Paulo Freire, ao falar de todo um contexto do sujeito que deverá informar o processo de leitura, e da necessidade de pensar o mundo como base para aí assentar o processo de expressão.
E será que ver é um ato individual? Não carregamos também a nossa comunidade na nossa visão do mundo?
Muitas das nossas noções de contexto, responsabilidade social ou de posicionamento em relação a um corpo coletivo são informadas pelo que ouvimos nos tempos de escola, sendo que muitos de nós fomos educados dentro de um contexto bancário – como o define Freire – de educação. Cabe a nós, na maior parte das vezes já em adultos, a tarefa de desfazer esse processo, o de questionar a informação que nos chegou e o modo como nos foi apregoada.
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Paulo Freire nasceu em 1921, em Recife, no Brasil. Estudou Direito e chegou a exercer, para pouco depois abandonar em prol do seu interesse pela Filosofia e Psicologia da Linguagem. Foi Professor de Português e, mais tarde, trabalhou no contexto da alfabetização de adultos no Brasil, um trabalho que iniciou em 1947, ao ser contratado para administrar o Departamento de Educação e Cultura do SESI (Serviço Social da Indústria). Ocupou vários cargos de públicos de dirigente na área da educação e, em 1959, doutorou-se em filosofia e história da educação. Freire era um crítico incessante da escola brasileira, defendendo que o subdesenvolvimento do Brasil não poderia ser atribuído ao facto da população não saber ler nem escrever, mas devido à situação de miséria em que esta vivia.
Foi influenciado pela teoria marxista, pelo pensamento de Hegel, Lukács e Mounier, bem como pela prática personalista cristã no Brasil [2] e teve um papel ativo no Movimento de Cultura Popular de Recife, onde liderou projetos para alfabetizar trabalhadores agrícolas.
Ganhou reconhecimento internacional ao desenvolver uma metodologia que lhe permitiu alfabetizar 300 pessoas em 45 dias em 1963, na cidade de Angicos, em Rio Grande do Norte.
Em 1964 instituiu-se no Brasil o Programa Nacional de Alfabetização, que teve mão de Freire tanto na metodologia como na implantação. Poucos meses passados, com o golpe militar de 1964, o programa é vetado pelos militares que assumiram o poder e Freire preso em Recife; o seu método de alfabetização é considerado uma prática subversiva e o programa é cancelado. Com isto, Freire emigrou para a Bolívia e depois para o Chile, onde escreveu a sua obra mais conhecida, A Pedagogia do Oprimido. Voltou ao Brasil apenas em 1980.
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“Talvez seja este o sentido mais exato da alfabetização: aprender a escrever a sua vida como autor e como testemunha da sua história, isto é, autobiografar-se, existenciar-se, historicizar-se.”
Ernani Maria Fiori, 1967, Prefácio de “Pedagogia do Oprimido”, 79º edição, editora Paz e Terra
A pedagogia de Freire toma forma na alfabetização mas vai para além dela. Fala-se aqui não apenas de uma alfabetização mas de uma desconstrução ou uma tomada de consciência do sujeito em relação a uma estrutura social. O ímpeto deste processo é o da prática da liberdade, que é um processo constante e sem fim, que procura uma autoconfiguração.
“Os métodos da opressão não podem, contraditoriamente, servir à libertação do oprimido. Nessas sociedades, governadas pelos interesses de grupos, classes e nações dominantes, a ‘educação como prática da liberdade’ postula, necessariamente, uma ‘pedagogia do oprimido’. Não pedagogia para ele, mas dele”
Ernani Maria Fiori, 1967, Prefácio de “Pedagogia do Oprimido”, 79º edição, editora Paz e Terra
O processo de alfabetização implica aqui também um processo de conscientização, o qual só está completo quando o educando se mostra capaz de usar a língua para transformar a sua própria realidade, algo que deve partir dele, visto que o seu opressor – ou o sistema que o oprime – nunca terá os seus interesses em mente. Daí, Freire propõe a palavra como elemento ativo na transformação da realidade.
“Em regime de dominação de consciências, em que os que mais trabalham menos podem dizer a sua palavra e em que multidões imensas nem sequer têm condições para trabalhar, os dominadores mantêm o monopólio da palavra, com que mistificam, massificam e dominam. Nessa situação, os dominados, para dizerem a sua palavra, têm que lutar para tomar-la. Aprender a tomar-la dos que a detêm e a recusam aos demais é um difícil, mas imprescindível aprendizado – é a ‘pedagogia do oprimido’. ”
Ernani Maria Fiori, 1967, Prefácio de Pedagogia do Oprimido, 79º edição, editora Paz e Terra
Freire descreve a educação que critica como operando numa “prática da dominação”, cultivando a ingenuidade e operando com o claro objetivo de acomodar os educandos ao que ele chama do “mundo da opressão”. Esta intenção, no entanto, nem sempre é clara pela parte do professor, visto que já está tão enraizada e, assim, normalizada no modelo educativo vigente. Aliada a isto, Freire traz também a questão do analfabetismo, que funciona como mais uma prática de dominação, significando não só a incapacidade de ler e escrever como também a dificuldade em interpretar estruturas políticas e sociais em que o sujeito se insere. A pedagogia do oprimido toma aqui o seu lugar como pedagogia dos “homens empenhando-se na luta por sua libertação”. [3]
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A tradicional escola brasileira que Freire criticava recorria à ferramenta das cartilhas no processo de alfabetização. Publicações ilustradas com frases curtas como “Eva viu a uva”, “O boi bebeu e babou”, “A ave voa”, incitavam à memorização através da aliteração. Pretendiam ser neutras, apresentando um saber abstrato, o que Freire criticava precisamente por se apoiarem na memorização e repetição de frases feitas, e também pelo facto de carregarem nelas símbolos e significados que reproduziam a ideologia dominante. A cartilha mais conhecida foi a Caminho Suave (1948), da autoria de Branca Alves de Lima, que foi retirada do programa de ensino brasileiro em 1996.
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Quanto ao uso da imagem, não sendo necessariamente um mau ponto de partida para a alfabetização, mostra ser um mau recurso apenas quando se mostra descontextualizada e não fala diretamente com o educando, não dizendo nada do seu universo. Aí acarreta todo um universo de significados ou pressupostos que este apreende como estando relacionados com a imagem inicial. À priori limitadora, esta fórmula priva o educando de criar uma relação ativa com o objeto de estudo, assimilando-o, ao invés disso, como algo exterior a si e não em relação direta consigo.
O método de Paulo Freire (ou, vá, menos um método do que um conjunto de princípios políticos e pedagógicos), em oposição, propunha partir do uso de palavras relacionadas com o contexto de cada aluno, procurando que este alicerçasse a linguagem em pilares pessoais para construir a sua própria relação com ela, e não apenas que se moldasse a um formato acrítico de expressão.
Na sua proposta parte-se de momento inicial de descoberta em conjunto, de discussão dentro do contexto do grupo, passando-se depois a exercícios com as chamadas fichas de cultura [4], documentos que contêm imagens sequenciais, que mais tarde aparecem associadas a palavras. O animador promove então a discussão da imagem na sua relação com a palavra, e mesmo até da apresentação da palavra, a sua posição, o seu tamanho em relação ao desenho; promovendo também a sua desconstrução em sílabas, que o educando mais tarde aponta numa ficha de descoberta.

Esta forma de trabalhar a maleabilidade das palavras, brincando com as sílabas de modo a formar novas palavras, concede agência ao educando no processo. Inicialmente pouco importa se atinge o resultado de gerar palavras reais, mas ativa as sílabas como matéria a moldar.
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Essencial a este processo é também o nivelamento da relação entre educador (ou animador) e educando, procurando a horizontalidade no processo. Nesta relação, que, tradicionalmente, é marcada por um caráter de narração de conteúdos, Freire observa que estes “tendem a petrificar-se ou fazer-se algo quase morto, sejam valores ou dimensões concretas da realidade.” [3]
Neste esquema, e daí o termo bancário que Freire emprega para descrever esta dinâmica, o educador “enche” os educandos com o conteúdo que narra.
“Quanto mais se exercitem os educandos no arquivamento dos depósitos que lhes são feitos, tanto menos desenvolverão em si a consciência crítica de que resultaria a sua inserção no mundo, como transformadores dele. Como sujeitos.” [3]
A palavra perde, então, a sua dimensão de significado e torna-se oca, “verbosidade alienada e alienante”. [3] Neste modo de educação, a palavra é sonoridade, declamada com o propósito de ser memorizada. Este processo envolve também um entorpecimento de quem recebe esta educação, um tornar-se passivo, mero recetáculo de informação.
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Surge, por vezes, a questão do “medo da liberdade”, ou a associação de uma libertação a uma perda de estrutura, a um “anarquismo” existencial, que o próprio Paulo Freire menciona na introdução do seu livro Pedagogia do Oprimido: “Discutia-se, na oportunidade, se a conscientização de uma situação existencial, concreta, de injustiça não poderia conduzir os homens dela conscientizados a um ‘fanatismo destrutivo’ ou a uma ‘sensação de desmoronamento total do mundo em que estavam esses homens’.” Com isto, levanta a possibilidade do sujeito oprimido aderir ele mesmo à opressão e oprimir outros:
“O ‘homem novo’, em tal caso, para os oprimidos, não é o homem a nascer da superação da contradição, com a transformação da velha situação concreta opressora, que cede seu lugar a uma nova, de libertação. Para eles, o novo homem são eles mesmos, tornando-se opressores de outros.” […] “A sua visão do homem novo é uma visão individualista. A sua aderência ao opressor não lhes possibilita a consciência de si como pessoa, nem a consciência de classe oprimida. Desta forma, por exemplo, querem a reforma agrária, não para se libertarem, mas para passarem a ter terra e, com esta, tornar-se proprietários ou, mais precisamente, patrões de novos empregados.”
A isto, Freire responde: “Pelo contrário, a conscientização, que lhe possibilita inserir-se no processo histórico, como sujeito, evita os fanatismos e o inscreve na busca de sua afirmação.”
E alerta ainda para outra postura que não o receio da liberdade: a daqueles que se mostram como defensores da liberdade, quando na verdade são apenas defensores do status quo, e, na realidade, igualmente a temem.
Freire assenta estes comentários em interações vividas com proletários, camponeses e homens de classe média, os quais conheceu no decurso da sua atividade educativa. Levanta a questão de uma opressão estrutural, e de que só há um tanto que se pode fazer sem uma mudança a essas mesmas estruturas vigentes. Mas, claro, tem de se começar por algum lado. E não será de dentro que a estrutura será mudada.
“A opressão, que é um controle esmagador, é necrófila. Nutre-se do amor à morte e não do amor à vida. A concepção ‘bancária’, que a ela serve, também o é. No momento mesmo em que se funda num conceito mecânico, estático, espacializado da consciência e em que transforma, por isto mesmo, os educandos em recipientes, em quase coisas, não pode esconder sua marca necrófila.” [3]









































