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Temporada 1 : Eva

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T1 : Eva

As projeções de Eva

Por: Rita Mota 14/02/2023
“Pelo segundo século depois do nascimento de Cristo, Eva tinha sido nomeada pelo teólogo cristão Tertuliano como ‘o acesso ao diabo’, responsável por corromper o imaculado Adão e por causar a morte do filho de Deus. A história de como Eva adquiriu o seu carácter desonroso baseia-se em muitos tipos diferentes de provas, tanto judaicas como cristãs, datando de períodos e contextos diferentes, mas está crucialmente ausente da Bíblia judaica.” 
Pamela Norris, Eve: a Biography, p. 41


Eva desaparece da narrativa do Genesis após o episódio do Jardim do Éden. É uma pena que tenham aberto mão dela, no entanto, a personagem generalizada da mulher continua a figurar, suportando as muitas narrativas sobre pecado, costume e moralidade. “Surpreendentemente, dado a sua reputação tardia,” escreve Pamela Norris em Eve: A Biography, “as críticas à prostituição e sedução feminina não a citam como um exemplo a evitar, e ela não é nem uma vez invocada nos muitos avisos aos homens contra envolvimentos com mulheres.” Não é até ao século I d.C, com o texto grego Apocalypse of Moses que voltam a escrever sobre Eva.

É neste texto que se começa a sedimentar um discurso que continua durante a Idade Média em textos sagrados e esculturas e pinturas eclesiásticas. Esta narrativa foi amplamente difundida sobretudo através das imagens, que funcionavam como uma espécie de proto-propaganda, e com base nestas o povo medieval orientava a sua opinião.


Em Apocalypse of Moses, a condenada Eva ressurge. O envelhecido Adão adoece e a sua família reune-se em volta dele; procurando saber a causa da sua indisposição, o seu filho sugere que resida no desejo do alimento do Paraíso. Aí, Adão é rápido a apontar, a resposta é clara: Eva é a culpada. Mais uma vez lembra a história do Jardim do Eden, ou, nesta iteração grega das suas vidas, talvez a conte pela primeira vez; neste universo, embora seja igualmente a culpa de todos os males civilizacionais, Eva continua a não ser particularmente proeminente. Embora no livro do Genesis Eva desapareça da narrativa após cometer o pecado primordial, aqui reage:


Meu senhor Adão, levantai-vos, dai-me metade da vossa doença e deixai-ma suportar … por minha causa sofreis perturbações e dores”




Aqui Eva já não é perigosa ou tentadora, ganhando uma nova pele: a da culpa; materializando-se na imagem da mulher penitente que compensa por males que não lhe cabem a ela compensar. Na tentativa de obter o óleo da misericórdia – a cura para Adão – Eva parte com o seu filho Set. Quando este é atacado por uma fera, Eva relembra-a “que uma vez que todos os animais foram sujeitos aos seres humanos, a imagem de Deus”. Que se livre Eva de moralizar, passadas centenas de anos, pois aqui a narrativa é fresca, e a fera responde: 


“Ó Eva, nem a tua mágoa nem o teu pranto nos são devidos, mas sim a ti, uma vez que a regra das bestas aconteceu por tua causa”


Congelada no tempo, Eva é silenciada. Na impossibilidade de obterem o óleo, retornam a Adão, que já tem os dias contados (3 deles). Adão tem o seguinte a dizer a Eva:


“Por que razão causaste a destruição entre nós … a morte a ganhar domínio sobre toda a nossa raça?”


Em tom de telenovela, ordena-lhe para que chame de novo toda a família e lhes conte a história da sua transgressão. E como boa mulher, Eva assim o faz, em mais um ato de humilhação. Neste reconto, bastante mais detalhado do que o original, a serpente é ludibriada pelo Diabo, que a convence a interpelar Eva, pelo que ele se encarregará de toda a conversa; dir-lhe à que pena por eles (Adão e Eva), pois vivem como animais, e que não quer que se mantenham na ignorância; oferece-lhes o fruto, que contém “o veneno da sua maldade, que é a luxúria, a raiz e o princípio de cada pecado.” 

A luxúria é o que concede a este fruto a sua excepcionalidade, concedendo pela primeira vez um caráter sexual ao primeiro pecado, algo que no Genesis era apenas insinuado; o que era simbólico é agora objetivo e explicativo, e talvez por isto tenha este texto ecoado tanto.

Apocalypse of Moses conclui com um relato do enterro de Adão e Eva, esta que, inevitavelmente, está condenada a não o perdurar. Pede a Deus que conceda um lugar ao seu corpo junto do marido, e dias após a morte de Adão, 


“a sua costela retornaria a ele”. 



Primeiro é esperado dela que reproduza fartamente, depois que não peque, e, idealmente, que descubra uma forma de cumprir com os dois. Nessa impossibilidade vive Eva, culminando todas as suas ações com um pedido de desculpas e acarretando com as falhas da humanidade às costas.

A imagem de Eva informa muitas outras figuras, notavelmente a representação da Virgem Maria. Cabe a Maria reverter a reputação de Eva, ela que é colocada sob ataque quando aparece grávida – também ela sucumbiu ao pecado primordial? – e cujo corpo é violado na busca de provas de virgindade:


“Ela insere corajosamente o seu braço na vagina da recém-parturiente Maria, apenas para que ela emerja murcha e inútil, e a vergonhosa Salomé tem de ter o membro miraculosamente restaurado pelo recém-nascido”


Maria ganha até a designação de “virgem perpétua” (do grego Aeiparthenos) em 451 d.C, comprovando-se incorruptível desde a concepção ao pós-parto (postulado como dogma em 649 d.C). O culto de Maria teve o seu pico entre os séculos XI e XV e veio preencher o vazio deixado pela perspetiva tortuosa da Queda do Homem, que agoirava a corrupção inerente na figura da mulher. Maria é então proposta como o antídoto a Eva, revertendo o pecado primordial, desassociando a gestação da sexualidade e colocando-a no leito da família e da igreja.

Em 1950, a assunção da Virgem Maria aos céus é postulada como dogma pelo papa Pio XII, marcando-a capaz de desfazer o pecado de Eva; no mesmo ano Charles Schulz publica a primeira tira dos Peanuts nos EUA, e, em Junho, começa a Guerra da Coreia.

Maria encapsula a contradição no modelo de perfeição (ainda hoje esperado) da mulher; ao mesmo tempo virgem e mãe devota. A construção do feminino e do masculino no mundo ocidental deve muito a estas indicações de comportamento assentes em textos bíblicos, muito mais do que à dita biologia.


E por muito que sejam “só” histórias, – histórias são tudo o que temos – continuamos a reconhecer Eva na atualidade: ela reverbera em argumentos transfóbicos e misóginos. 

Pode ser interessante, no entanto, associar agora Eva não imediatamente e apenas à figura da mulher mas a qualquer figura subjugada, abjeta. Talvez a Eva possa ser liberta de uma representação necessariamente feminina e associada a outros corpos, numa representação menos essencialista. Ou talvez a história de Eva seja já obsoleta, inadequada aos nossos tempos, e um mito de criação seja a última coisa de que precisamos neste momento.




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