“Embora possam parecer simples histórias de aventura sobre coisas que aconteceram no passado, os mitos da criação continuam a ter relevância ao fornecer uma carta social para descrever como a sociedade humana veio a ser. Ou seja, eles validam a ordem social contemporânea ao traçá-la até uma ordem social sagrada no passado.”
Mari Womack. Symbols and Meaning: A Concise Introduction, 2005.
Querendo perceber realmente a figura de Eva, desbravando para além das referências vagas na cultura pop que permeavam o meu pensamento, percebi que o melhor a fazer seria investigar as suas raízes na Bíblia. Como prefácio digo apenas que antes de começar a ler sobre este tema sabia muito pouco sobre a Bíblia, as suas origens e sobre as origens do próprio cristianismo e judaísmo. E isto deve-se a duas principais razões: por nunca ter sido religiosa e por ter crescido numa comunidade pequena e uniforme que tomava o cristianismo – sobretudo no seu aspeto cultural, com os seus rituais e valores – como predefinição, de tal forma que ainda em criança senti a necessidade de me afastar rapidamente destes costumes.
Separando a fé do fenómeno, e tendo agora também algum interesse em compreender como alguns valores e concepções cristãs se infiltram novamente na cultura popular contemporânea (sobretudo em discursos misóginos de “posse” e argumentos essencialistas), vejo agora o meu interesse a redobrar-se, pensando na história de Eva antes de mais, como uma narrativa, e, sobretudo, como mito fundador do ocidente.
Eva, famosamente a mãe de todos os seres humanos, tem sido regularmente repescada ao longo dos tempos, particularmente junto dos símbolos provocatórios que lhe associamos (a maçã, a serpente) e pela sua conotação com o desejo e com o fruto proibido; o que é curioso visto que ela não é necessariamente uma figura dissidente.
É mencionada em textos pela primeira vez no livro de Génesis, igualmente o primeiro livro da bíblia hebraica e do Antigo Testamento da bíblia cristã, onde é concebida como resposta à solidão de Adão, “an help meet for him”, ou uma “companhia”, como leio na biblia.pt. Ao contrário de Adão, Eva não é modelada a partir de matéria vegetal, do “barro da terra”; nasce da costela de Adão, que Deus lhe retira quando o adormece num sono profundo; uma atitude sem dúvida repreensível para um pai, uma das muitas concessões que lhe devemos permitir de modo a continuarmos a seguir esta narrativa.

Avaliando-a como uma narrativa – não uma review total mas apenas uma observação de quem se submergiu em trechos destes textos durante alguns meses – a Bíblia contradiz-se regularmente, repete-se, é óbvia demais em muitos momentos, sofre de inúmeros reboots e sequelas. E assim Adão, que é moldado a partir do barro por um ser omnipotente e dorme debaixo de uma árvore, de alguma forma, “deixa a casa do pai e da mãe para se unir com a sua mulher e passam a ser um só corpo” (Génesis 2.24)

Depois da mulher, aparece a serpente, vilã, falante, que persuade Eva a comer o fruto da árvore proibida. O seu argumento é de que Deus sabe que a árvore não trará a morte mas o conhecimento do bem e do mal, transformando-os igualmente em deuses. A mulher come o fruto e dá-o a Adão para que prove também; imediatamente ganham a percepção de que estão nus – não fosse esse facto infeliz andaríamos todos despidos – e cozem aventais de folha de figueira para se resguardarem. A Deus, vendo esta cena, parece-lhe estranho que as suas criações se tapem, e imediatamente suspeita de Adão. Como bom pai castigador, encarrega-se de condenar a serpente a rastejar na sua barriga pelo chão – o que nos leva por contraste a imaginar uma fisionomia alternativa para a serpente: um animal alado? ou simplesmente um pau andante? – e a viver em oposição aos humanos.



A mulher é condenada à tarefa penosa e regular de parir (“Vou fazer com que sofras os incómodos da gravidez e terás que dar à luz com muitas dores.” Génesis 3.16) e a sujeitar-se ao marido: “Apesar disso, sentirás forte atração pelo teu marido, mas ele há de mandar em ti.”. Pareceu-me curioso aqui o uso da conjunção adversativa “mas”, reconhecendo o incómodo de ter alguém a mandar em nós, o que – perdoem-me os padrões baixíssimos – me surpreende nesta narrativa. No entanto, são muitas as traduções da bíblia – o site biblehub.com mostra me 39, entre modernas, clássicas e literais – e em várias o “mas” não figura.
Ao Génesis concedo-lhe uma coisa: para uma narrativa de origem de tudo o que existe consegue ser uma narrativa muito breve: em 3 capítulos está criado o mundo, todos os seres vivos, e o pecado cometido.
Como referência, pensa-se que a história do Jardim do Éden (Génesis 2:4 a Génesis 3) tenha sido compilada a partir de vários textos e escrita por volta de 1000 a 900 A.C, existindo como narrativa oral muito antes disso. Há na forma final de Génesis também influências de antigos textos sagrados hebraicos, bem como inteligentemente inseridas referências a culturas rivais que o povo israelita [1] enfrentou na sua luta pela nacionalidade, crenças sacerdotais sobre moralidade e sobre o que seria um comportamento social apropriado à época. Como tradição oral, a narrativa ganhou corpo durante o período em que este povo se fixou em Canaã (hoje Palestina, território controlado por Israel, Cisjordânia, Jordânia e sul da Síria e do Líbano). Para este povo, a história da desobediência de Adão e Eva provavelmente foi entendida como justificação para a vida que levavam: a necessidade de trabalharem arduamente a terra de modo a conseguirem alimentar-se; a necessidade de se reproduzirem de modo a gerarem mais mão-de-obra, havendo um ênfase na importância de gerar filhos homens. Pamela Norris, relembrando o trabalho de Carol Meyers em Discovering Eve, nota que “a necessidade da mão-de-obra, de mais mãos para ajudar, teria significado pressão nas mulheres para serem férteis, para terem filhos para defenderem o seu território e cultivarem a terra, filhas para cuidarem dos animais e das colheitas, para tirarem água, para girarem, tecerem e cozerem e fabricarem cerveja para o agregado familiar em crescimento.”
Longe de ser a paisagem idílica descrita na Bíblia, Canaã era caracterizado por um solo pobre nas montanhas, uma topografia irregular que dificultava o movimento e um abastecimento de água escasso. A narrativa do Eden evoca uma nostalgia por um tempo que nunca existiu.
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Eva não existe separadamente de Deus, nem de Adão, e é maioritariamente em narrativas seculares modernas que se começa a representá-la sozinha. Deus criou-a como companhia para o primeiro homem, tal como criou tudo à sua volta, partindo do nada. Deus como escrito e imaginado pelos hebreus, central nas religiões cristãs e judaicas, é um que existe em isolamento, existindo antes de tudo o resto, inventando a própria materialidade.


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A cisão entre o divino e a natureza é central nestas crenças, o que marca uma mudança de paradigma de religiões anteriores, nas quais o mundo natural e as divindades eram indissociáveis, contemplando o ciclo natural das plantas e a regeneração a partir da matéria, possibilitando uma outra percepção da vida e da morte, menos totalizante. Pamela Norris afirma que quando a presença de um deus ou deusa é visto como inerente ao mundo natural, a relação que uma cultura tem com a própria morte pode ser vista como parte de um processo natural, um retorno à matéria de onde vimos e de onde voltaremos a emergir. “Separando Deus da natureza e dando-Lhe uma relação intelectual ou conceptual com a Sua criação, e as possibilidades de uma procissão rítmica de morte e renascimento, espelhando o ciclo de vida das plantas e o reconfortante crescente e minguante da lua, tornam-se remotos”, nota Norris em Eve: a Biography.
A finitude da vida e as suas inescapáveis intempéries ficam então assentes como a dura realidade na qual temos de viver, e assim uma paisagem de castigos, sofrimento e trabalho árduo é pintada nos primeiros livros do Génesis.
Faz sentido, então, que na narrativa Bíblica se foque tanto na reprodução farta. O imaginário que gerou Eva parece ser tanto um espaço que isola e cerca as mulheres no núcleo da família como as explora como corpo abjeto [2]. Será possível interpretar Eva noutra perspetiva que não a limitada pelo contexto de onde surgiu?

Antes de Eva existiam já nas religiões do Próximo Oriente Antigo [3] as figuras das deusas mãe, divindades como Astarte e Asherah. Astarte aparece envolta em serpentes nas representações físicas que sobrevivem dela (século XV a.C).
No século XVIII a.C o monoteísmo desenvolve-se como ferramenta de coesão necessária para a sobrevivência de povos, o que por consequência levou à supressão destas deusas, que eram vistas como rivais. Yahweh passou a ser o único deus dos israelitas, e no Antigo Testamento escreve-se em tom de aviso contra o culto das deusas-mãe.
O culto de Yahweh é contraditório e surpreende pela “falta de espaço imaginativo que oferecia às mulheres” (Pamela Norris). Enquanto promovia fortemente a família e a gravidez, retirava às mulheres as divindades femininas que as confortavam.
A serpente, um animal que associamos agora naturalmente ao perigo, que na ancestralidade era representada de mão dada com a fertilidade, é na narrativa do Génesis convenientemente associada ao pecado.


Há um outro registo de um mito fundador que anterior a Génesis, o poema babilónico Enuma Elish, que profetiza uma história mais violenta que a de Eva, mas igualmente simbólica, no qual outra figura-mãe de todos os seres – Tiamat, normalmente representada com cabeça de serpente ou de dragão – é assassinada por um deus guerreiro – Marduk – e da sua carcaça o céu e a terra são criados. Haverá mito fundador que não assente na mulher como elemento narrativo que desencadeie a ação?
O Génesis é uma narrativa mais interessante pelo que suprime do que pelo que conta. Tal como Enuma Elish, é uma peça de propaganda ancestral; usada para sedimentar o monoteísmo e dando azo a discursões misóginas em textos gregos e medievais.

No entanto, outras perspetivas propõem irmos para lá de uma mitologia canonizada. John Philips sugere, em Eve: The History of an Idea que, “para um entendimento da cultura ocidental, examinar a história da interpretação errada da Eva é mais importante [do que tentarmos descobrir a intenção inicial do texto]. É a Eva mal interpretada, e não a Eva da investigação moderna, que desempenhou um papel significativo no drama da história.”
Esta perspetiva interessa-me particularmente. Procurar as raízes que sedimentaram Eva nas escrituras é apenas um ponto de partida, e um que por muito que leve a conclusões surpreendentes e que até contradigam o legado da personagem ao longo da história, não diz muito sobre a atualidade. Na atualidade a influência desta personagem é omnipresente e a sua interpretação errada é o cânone. Brincamos com a contradição da inocente tentadora em Eva. Séries e filmes são construídos a partir dessa mesma contradição. Não há como vingar Eva na atualidade, apenas podemos refazê-la. Construir um mito por cima do mito antigo. Porque não?

Referências
Cornell, M. Doretta. 2005. Mother of all the living: Reinterpretations of Eve in Contemporary Literature.
Fiore, Julia. 2019. Depictions of Eve in Art and Pop Culture. Artsy. https://www.artsy.net/article/artsy-editorial-long-demonized-art-eve-pop-culture-icon
Giallongo, Angela. 2017. The Historical Enigma of the Snake Woman from Antiquity to the 21st Century.
Norris, Pamela. 1999. Eve: A Biography.
Womack, Mari. 2005. Symbols and Meaning: A Concise Introduction.