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Temporada 1 : Eva

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T1 : Eva

Génesis

Por: Rita Mota 13/02/2023
“Embora possam parecer simples histórias de aventura sobre coisas que aconteceram no passado, os mitos da criação continuam a ter relevância ao fornecer uma carta social para descrever como a sociedade humana veio a ser. Ou seja, eles validam a ordem social contemporânea ao traçá-la até uma ordem social sagrada no passado.”
Mari Womack. Symbols and Meaning: A Concise Introduction, 2005.


Querendo perceber realmente a figura de Eva, desbravando para além das referências vagas na cultura pop que permeavam o meu pensamento, percebi que o melhor a fazer seria investigar as suas raízes na Bíblia. Como prefácio digo apenas que antes de começar a ler sobre este tema sabia muito pouco sobre a Bíblia, as suas origens e sobre as origens do próprio cristianismo e judaísmo. E isto deve-se a duas principais razões: por nunca ter sido religiosa e por ter crescido numa comunidade pequena e uniforme que tomava o cristianismo – sobretudo no seu aspeto cultural, com os seus rituais e valores – como predefinição, de tal forma que ainda em criança senti a necessidade de me afastar rapidamente destes costumes.

Separando a fé do fenómeno, e tendo agora também algum interesse em compreender como alguns valores e concepções cristãs se infiltram novamente na cultura popular contemporânea (sobretudo em discursos misóginos de “posse” e argumentos essencialistas), vejo agora o meu interesse a redobrar-se, pensando na história de Eva antes de mais, como uma narrativa, e, sobretudo, como mito fundador do ocidente.


Eva, famosamente a mãe de todos os seres humanos, tem sido regularmente repescada ao longo dos tempos, particularmente junto dos símbolos provocatórios que lhe associamos (a maçã, a serpente) e pela sua conotação com o desejo e com o fruto proibido; o que é curioso visto que ela não é necessariamente uma figura dissidente. 

É mencionada em textos pela primeira vez no livro de Génesis, igualmente o primeiro livro da bíblia hebraica e do Antigo Testamento da bíblia cristã, onde é concebida como resposta à solidão de Adão, “an help meet for him”, ou uma “companhia”, como leio na biblia.pt. Ao contrário de Adão, Eva não é modelada a partir de matéria vegetal, do “barro da terra”; nasce da costela de Adão, que Deus lhe retira quando o adormece num sono profundo; uma atitude sem dúvida repreensível para um pai, uma das muitas concessões que lhe devemos permitir de modo a continuarmos a seguir esta narrativa.


“The Adam and Eve Reliefs on the Façade of the Cathedral of the Assumption”, Orvieto séc. XIV. Foto de Richard Stacks


Avaliando-a como uma narrativa – não uma review total mas apenas uma observação de quem se submergiu em trechos destes textos durante alguns meses – a Bíblia contradiz-se regularmente, repete-se, é óbvia demais em muitos momentos, sofre de inúmeros reboots e sequelas. E assim Adão, que é moldado a partir do barro por um ser omnipotente e dorme debaixo de uma árvore, de alguma forma, “deixa a casa do pai e da mãe para se unir com a sua mulher e passam a ser um só corpo” (Génesis 2.24)



Depois da mulher, aparece a serpente, vilã, falante, que persuade Eva a comer o fruto da árvore proibida. O seu argumento é de que Deus sabe que a árvore não trará a morte mas o conhecimento do bem e do mal, transformando-os igualmente em deuses. A mulher come o fruto e dá-o a Adão para que prove também; imediatamente ganham a percepção de que estão nus – não fosse esse facto infeliz andaríamos todos despidos – e cozem aventais de folha de figueira para se resguardarem. A Deus, vendo esta cena, parece-lhe estranho que as suas criações se tapem, e imediatamente suspeita de Adão. Como bom pai castigador, encarrega-se de condenar a serpente a rastejar na sua barriga pelo chão – o que nos leva por contraste a imaginar uma fisionomia alternativa para a serpente: um animal alado? ou simplesmente um pau andante? – e a viver em oposição aos humanos.


“Adam and Eve”, de Lucas Cranach, o Velho, 1525. The Courtauld Institute of Art, Londres


“Lucretia’s suicide”, Oficina de Lucas Cranach, o Velho, c. 1535. Bonnefantenmuseum Maastricht, Holanda


A mulher é condenada à tarefa penosa e regular de parir (“Vou fazer com que sofras os incómodos da gravidez e terás que dar à luz com muitas dores.” Génesis 3.16) e a sujeitar-se ao marido: “Apesar disso, sentirás forte atração pelo teu marido, mas ele há de mandar em ti.”. Pareceu-me curioso aqui o uso da conjunção adversativa “mas”, reconhecendo o incómodo de ter alguém a mandar em nós, o que – perdoem-me os padrões baixíssimos – me surpreende nesta narrativa. No entanto, são muitas as traduções da bíblia – o site biblehub.com mostra me 39, entre modernas, clássicas e literais – e em várias o “mas” não figura.


Ao Génesis concedo-lhe uma coisa: para uma narrativa de origem de tudo o que existe consegue ser uma narrativa muito breve: em 3 capítulos está criado o mundo, todos os seres vivos, e o pecado cometido.

Como referência, pensa-se que a história do Jardim do Éden (Génesis 2:4 a Génesis 3) tenha sido compilada a partir de vários textos e escrita por volta de 1000 a 900 A.C, existindo como narrativa oral muito antes disso. Há na forma final de Génesis também influências de antigos textos sagrados hebraicos, bem como inteligentemente inseridas referências a culturas rivais que o povo israelita [1] enfrentou na sua luta pela nacionalidade, crenças sacerdotais sobre moralidade e sobre o que seria um comportamento social apropriado à época. Como tradição oral, a narrativa ganhou corpo durante o período em que este povo se fixou em Canaã (hoje Palestina, território controlado por Israel, Cisjordânia, Jordânia e sul da Síria e do Líbano). Para este povo, a história da desobediência de Adão e Eva provavelmente foi entendida como justificação para a vida que levavam: a necessidade de trabalharem arduamente a terra de modo a conseguirem alimentar-se; a necessidade de se reproduzirem de modo a gerarem mais mão-de-obra, havendo um ênfase na importância de gerar filhos homens. Pamela Norris, relembrando o trabalho de Carol Meyers em Discovering Eve, nota que “a necessidade da mão-de-obra, de mais mãos para ajudar, teria significado pressão nas mulheres para serem férteis, para terem filhos para defenderem o seu território e cultivarem a terra, filhas para cuidarem dos animais e das colheitas, para tirarem água, para girarem, tecerem e cozerem e fabricarem cerveja para o agregado familiar em crescimento.”

Longe de ser a paisagem idílica descrita na Bíblia, Canaã era caracterizado por um solo pobre nas montanhas, uma topografia irregular que dificultava o movimento e um abastecimento de água escasso. A narrativa do Eden evoca uma nostalgia por um tempo que nunca existiu.


*


Eva não existe separadamente de Deus, nem de Adão, e é maioritariamente em narrativas seculares modernas que se começa a representá-la sozinha. Deus criou-a como companhia para o primeiro homem, tal como criou tudo à sua volta, partindo do nada. Deus como escrito e imaginado pelos hebreus, central nas religiões cristãs e judaicas, é um que existe em isolamento, existindo antes de tudo o resto, inventando a própria materialidade.


“Eve” de Paul Gauguin, c. 1890. Ailsa Mellon Bruce Fund, National Gallery of Art


“Eve” de Lucas Cranach, o Velho, c. 1533/37


“Eve” de Pantaleon Szyndler, 1889


A cisão entre o divino e a natureza é central nestas crenças, o que marca uma mudança de paradigma de religiões anteriores, nas quais o mundo natural e as divindades eram indissociáveis, contemplando o ciclo natural das plantas e a regeneração a partir da matéria, possibilitando uma outra percepção da vida e da morte, menos totalizante. Pamela Norris afirma que quando a presença de um deus ou deusa é visto como inerente ao mundo natural, a relação que uma cultura tem com a própria morte pode ser vista como parte de um processo natural, um retorno à matéria de onde vimos e de onde voltaremos a emergir. “Separando Deus da natureza e dando-Lhe uma relação intelectual ou conceptual com a Sua criação, e as possibilidades de uma procissão rítmica de morte e renascimento, espelhando o ciclo de vida das plantas e o reconfortante crescente e minguante da lua, tornam-se remotos”, nota Norris em Eve: a Biography.


A finitude da vida e as suas inescapáveis intempéries ficam então assentes como a dura realidade na qual temos de viver, e assim uma paisagem de castigos, sofrimento e trabalho árduo é pintada nos primeiros livros do Génesis.

Faz sentido, então, que na narrativa Bíblica se foque tanto na reprodução farta. O imaginário que gerou Eva parece ser tanto um espaço que isola e cerca as mulheres no núcleo da família como as explora como corpo abjeto [2]. Será possível interpretar Eva noutra perspetiva que não a limitada pelo contexto de onde surgiu? 




Antes de Eva existiam já nas religiões do Próximo Oriente Antigo [3] as figuras das deusas mãe, divindades como Astarte e Asherah. Astarte aparece envolta em serpentes nas representações físicas que sobrevivem dela (século XV a.C). 

No século XVIII a.C o monoteísmo desenvolve-se como ferramenta de coesão necessária para a sobrevivência de povos, o que por consequência levou à supressão destas deusas, que eram vistas como rivais. Yahweh passou a ser o único deus dos israelitas, e no Antigo Testamento escreve-se em tom de aviso contra o culto das deusas-mãe. 

O culto de Yahweh é contraditório e surpreende pela “falta de espaço imaginativo que oferecia às mulheres” (Pamela Norris). Enquanto promovia fortemente a família e a gravidez, retirava às mulheres as divindades femininas que as confortavam.

A serpente, um animal que associamos agora naturalmente ao perigo, que na ancestralidade era representada de mão dada com a fertilidade, é na narrativa do Génesis convenientemente associada ao pecado. 


Detalhe de “Fall and Expulsion of Adam and Eve” de Michelangelo. 1510. Fresco, Capela Sistina, Vaticano


Detalhe de “Fall and Expulsion of Adam and Eve” de Michelangelo. 1510. Fresco, Capela Sistina, Vaticano


Há um outro registo de um mito fundador que anterior a Génesis, o poema babilónico Enuma Elish, que profetiza uma história mais violenta que a de Eva, mas igualmente simbólica, no qual outra figura-mãe de todos os seres – Tiamat, normalmente representada com cabeça de serpente ou de dragão – é assassinada por um deus guerreiro – Marduk – e da sua carcaça o céu e a terra são criados. Haverá mito fundador que não assente na mulher como elemento narrativo que desencadeie a ação?


O Génesis é uma narrativa mais interessante pelo que suprime do que pelo que conta. Tal como Enuma Elish, é uma peça de propaganda ancestral; usada para sedimentar o monoteísmo e dando azo a discursões misóginas em textos gregos e medievais.


Representação de Tiamat (esq.) e Marduk (dir.). Desenho de L. Gruner baseado em baixo-relevo da entrada do templo Nimrud, no Iraque. Retirado do livro “A Second series of the monuments of Nineveh : including bas-reliefs from the palace of Sennacherib and bronzes from the ruins of Nimroud / from drawings made on the spot, during a second expedition to Assyria”, de Sir Austen Henry Layard. 1853, Londres.



No entanto, outras perspetivas propõem irmos para lá de uma mitologia canonizada. John Philips sugere, em Eve: The History of an Idea que, “para um entendimento da cultura ocidental, examinar a história da interpretação errada da Eva é mais importante [do que tentarmos descobrir a intenção inicial do texto]. É a Eva mal interpretada, e não a Eva da investigação moderna, que desempenhou um papel significativo no drama da história.”

Esta perspetiva interessa-me particularmente. Procurar as raízes que sedimentaram Eva nas escrituras é apenas um ponto de partida, e um que por muito que leve a conclusões surpreendentes e que até contradigam o legado da personagem ao longo da história, não diz muito sobre a atualidade. Na atualidade a influência desta personagem é omnipresente e a sua interpretação errada é o cânone. Brincamos com a contradição da inocente tentadora em Eva. Séries e filmes são construídos a partir dessa mesma contradição. Não há como vingar Eva na atualidade, apenas podemos refazê-la. Construir um mito por cima do mito antigo. Porque não?




Referências


Cornell, M. Doretta. 2005. Mother of all the living: Reinterpretations of Eve in Contemporary Literature.


Fiore, Julia. 2019. Depictions of Eve in Art and Pop Culture. Artsy. https://www.artsy.net/article/artsy-editorial-long-demonized-art-eve-pop-culture-icon


Giallongo, Angela. 2017. The Historical Enigma of the Snake Woman from Antiquity to the 21st Century.


Norris, Pamela. 1999. Eve: A Biography.


Womack, Mari. 2005. Symbols and Meaning: A Concise Introduction.

[1] Designação para o povo que habitou Canaã durante a Idade do Ferro. O seu nome advém de textos bíblicos, do facto de serem descendentes de Jacob, que mais tarde recebe o nome de Israel.

[2] Deixo uma nota aqui para o livro Powers of Horror: An Essay on Abjection de Julia Kristeva que me parece uma leitura essencial neste tópico (e teria figurado neste texto, havendo tempo para isso). Neste livro, Kristeva conecta o horror, a marginalização, o eu e o outro, explorando teorias de Sigmund Freud e Jacques Lacan.

[3] Correspondendo ao que chamamos agora Médio Oriente: Arménia, Chipre, Egito, Iraque, Irão, Palestina e territórios ocupados por Israel, Jordânia, Líbano, Síria e parte da Turquia.

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