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Temporada 1 : Eva

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T1 : Eva

Sobre Eva, Afrodite, Vênus, Ishtar, Zilda, Maria, Ana Paula, Bruna e Aurélia

Por: Giuliana Almasio 31/01/2023

Contextualizando a contextualização


Image ou Picture? [1]


A Eva que viu a uva não é aquela que viu a maçã. A Eva que viu a uva pode ser para cada pessoa uma coisa diferente, mas a Eva que viu a maçã, não. Quando penso na mitologia da criação judaico-cristã, lembro-me vagamente que a Eva nasceu da costela de Adão, que desrespeitou uma ordem divina e que, por ter provado do fruto proibido (não necessariamente uma maçã?), desencadeou uma punição hereditária a qual, supostamente, eu seria vítima atualmente. A minha interação com esse mito poderia ser mais visceral se eu fosse mais ligada ao Cristianismo, viés religioso que as minhas famílias materna e paterna seguem. O que me interessa disso é a relação entre a figura da Eva e a gênese, da origem do mundo.

Falando da minha família e da gênese, lembro-me que no sétimo ano da escola aprendi Genética na aula de Biologia. Fazíamos aqueles esquemas que mostravam as relações entre os parentes (Árvore Genealógica: obrigada, Google) e comecei a questionar ali a minha origem. Não estou a dizer que aos 14 anos pensei nisso pela primeira vez, e sim que aquela imagem esquemática me fez estrear a percepção de que a minha existência dependia de muita gente ancestral. 


Minha Árvore Genealógica improvisada


Sendo filha de um homem italiano e de uma mulher brasileira, experienciei o pertencimento a lugares muito distintos: a ponte entre as minhas origens cruza o Atlântico. Um ano depois da aula de Genética decidi que moraria na Itália. Fui. E voltei. Anos depois fui de novo para o outro lado do oceano, me atracando no Porto.


Giuliana Almasio cruzando o oceano Atlântico, fotografia de Deus (2017)


Voltando ao tema: o que a Eva tem a ver com isso? A esse ponto você já deve ter entendido que as minhas divagações acerca do tema tendem para uma história pessoal, certo? Preciso contextualizar mais um pouco para deixar essas relações mais explícitas.


Contextualização


Após o fim da Licenciatura em Design de Comunicação, comecei um Mestrado na mesma área. Numa cadeira lecionada pela Professora Susana Lourenço Marques, fiz um projeto audiovisual que partia de uma imagem da minha autoria e contava uma história pessoal (com direito a fofoca de família). Esse diaporama deu origem ao meu texto “Da imagem falada à imagem mental: as ressonâncias da Vênus/Afrodite para além da cadeia cinemática de anamneses”. 

Já neste processo, quando soube que o tema da Eva seria o mote para o desenvolvimento das associações, percebi a oportunidade de revisitar o Ensaio Crítico acadêmico. Relendo-o, fui tentando construir uma explicação para o paralelismo que intuí. Resolvi listar os pontos de encontro entre ambos os projetos:


1. No Ensaio Crítico uso a estrutura rizomática para atrelar os argumentos, em semelhança ao método da “assossiassão”. Além disso, o texto surge como consequência de um projeto audiovisual (que vou apresentar adiante), o qual também é baseado na associação de imagens e nas relações a elas conseguidas.


2. Usei a minha história pessoal como motor do projeto audiovisual, conseguindo relacionar a minha imagem a algumas figuras femininas que passaram pela minha vida, incluindo personagens mitológicas e da minha família (isso também explica a necessidade de “contextualizar a contextualização”). Optei seguir por esse caminho nesta investigação também. Afinal, se sou herdeira da Eva, da sua imagem e simbologia, parece-me justo.


3. Enfim, dando spoiler de uma das partes do Ensaio Crítico, menciono a figura mitológica da Vênus/Afrodite como uma construção imagética mental que é refém da oralidade e da imagem textual, assemelhando a construção da imagem da Eva à mitologia greco-romana. O que quero dizer é que em semelhança à Vênus/Afrodite, a Eva é uma imagem descrita e cada um de nós desenha a sua imagem mental consoante às próprias experiências.


Depois disso, entendo que a minha Eva configura uma imagem, um arquétipo [2], um retrato, um símbolo.

Ok. E o tal do Ensaio Crítico? E o projeto audiovisual? A seguir estão disponíveis. O texto, com algumas atualizações que amortecem o seu “academiquês” para uma comunicação menos rígida. 


O meu rizoma a partir do tema da Eva


Da imagem falada à imagem mental: as ressonâncias da Vênus/Afrodite para além da cadeia cinemática de anamneses


O que é esse projeto audiovisual?


É uma exibição sequencial de dez imagens desdobradas a partir de uma fotografia analógica da minha autoria. Tem uma apresentação formal que localiza-se entre uma resposta cinematográfica e um slideshow (ou diaporama, em português). Essa característica cinemática atribuída à sequência de imagens visuais, estáticas, ocorre com a unidade de tempo trazida pela narração de uma imagem textual, construindo a minha resposta ao exercício em dez fotografias que caminham no ritmo de um texto, também da minha autoria. A composição formada pela junção da vertente visual fixa com aquela textual e narrativa é o que dá vida a esse universo estático através do movimento, gerando uma nova imagem mais complexa que correlaciona informações visuais àquelas sonoras presentes na narrativa do texto. O qual, agora, conduz o olhar, o tempo e a interpretação das fotografias e das suas relações. 

Ao observar essa cadeia de imagens e anamneses foi despertado em mim o interesse em investigar algumas temáticas intrínsecas nela, assim como o significado da imagem, a diferença entre Picture e Image, o signo e a relação do texto com a imagem. Esses temas foram extraídos não só das fotografias que apresento no projeto como também das ligações que existem entre elas e dentro delas. 

A observação aos detalhes latentes do projeto audiovisual direcionou a minha resposta neste Ensaio Crítico para que seja fundamentada num discurso também rizomático, assim como um atlas de caminhos por onde o meu pensamento fluiu ao dissecar o projeto enquanto unidade e também individualizando as suas partes. Esse esforço é uma tentativa de manter o Ensaio Crítico coerente com a história pessoal rizomática de algumas das imagens que abordei, baseando-me nos movimentos e ligações desse projeto audiovisual que é, também, uma nova imagem.


Sugestão: assista ao vídeo antes de ler a continuação do texto.



Sobre a imagem falada, as Pictures e as Images


Nesse rizoma de imagens visuais variadas (fotos analógicas, autorretratos analógicos, fotos digitais de pinturas, fotos digitais de pinturas com selfie, fotos digitais feitas com timer, foto digitais de objetos, fotos encontradas na internet) conecto as fotografias, na narrativa textual, por meio de informações que extraio de cada uma delas referentes ao que individualmente suscitam na minha memória. Ou seja, no projeto, narro o que as fotografias falam para mim.

Antes de investigar as nuances do projeto, começo com a análise do basilar. Nessa primeira fase trago uma descrição acerca da imagem que é mais adequada para as leituras subsequentes. Nesse sentido,


“O significado da imagem não se declara por uma referência simples e direta ao objeto que ela representa. Pode representar uma ideia, uma pessoa, uma ‘imagem sonora’ (no caso do rébus) ou qualquer outra coisa. Para saber como lê-lo, precisamos saber como ele fala, o que é apropriado dizer sobre ele e em seu nome. A ideia da ‘imagem falada’, muitas vezes invocada para descrever certos tipos de presença ou vivacidade poética, por um lado, e eloquência pictórica, por outro, não é meramente uma figura para certos efeitos especiais nas artes, mas reside na origem comum da escrita e da pintura." (Mitchell 1984, 47)


A “imagem falada” [3], descrita por Mitchell anteriormente, é o conceito que mais se adequa ao entendimento da imagem, num sentido lato, no projeto audiovisual em questão. Nele, a imagem visual é utilizada enquanto um signo cujo significado, nesse contexto, só é válido ao escutar a narração que traz o meu ponto de vista. Isto é, precisamos saber como elas falam (Mitchell 1984).

Ainda sobre o significado das imagens fotográficas expostas na minha apresentação, também é possível afirmar que elas seriam entendidas enquanto Pictures (Vieira 2016) se não forem acompanhadas da imagem textual. Com isso, perdem a possibilidade de serem percebidas enquanto imagens mentais, ou Images (Vieira 2016).

Para tornar essa análise mais simples, trago a diferença dos significados de Picture e Image. Picture seria uma configuração material que tem um corpo material plano, assim como uma fotografia ou um desenho. Image refere-se a perceção daquilo que só existe na nossa mente, ou que é imaterial, como uma imagem mental (Vieira 2016) [4]. Com essa elucidação consigo retomar o raciocínio anterior para continuar a desenvolvê-lo. O que estou a dizer é que as fotografias que surgem na apresentação do projeto não pretendem representar objetivamente o conteúdo que elas contém. Para entendê-las, nesse contexto, em semelhança ao que Mitchell (1984) propõe, é preciso ouvir a minha resposta sobre elas.

Assim sendo, é possível afirmar que as fotografias que escolhi, para esse projeto, operam enquanto signos nessa narrativa. Essas imagens visuais não assumem a sua conotação material de Picture e exprimem-se com a potência imaterial atribuída às Images, já que foram invocadas para serem decifradas dentro desse enquadramento.


A Vênus/Afrodite


No contexto do projeto em análise e dando sequência ao raciocínio anterior, no qual as fotografias são lidas como signos, é importante questionar o uso do texto como fomentador dessa forma de compreender a imagem visual.

Michel Foucault (1966, 90) afirma que “entre o signo e seu conteúdo não há nenhum elemento intermediário e nenhuma opacidade”. Para ele,


“Os signos não têm, pois, outras leis, senão aquelas que podem reger seu conteúdo: toda análise de signos é, ao mesmo tempo de pleno direito, decifração do que eles querem dizer. Inversamente, a elucidação do significado nada mais será que a reflexão sobre os signos que o indicam.”


Considerando a perspectiva de Foucault, posso afirmar que a escolha das fotografias, no momento de criação da narrativa do projeto, ocorreu ao passo que a decifração de cada uma delas implicasse o estalar do gatilho para construir as pontes textuais entre as próximas imagens visuais da sequência. A narrativa é composta pela análise de diversas fotografias que provocam em mim a lembrança adequada para dar continuidade à história. Ou seja, as fotografias seriam os signos e o texto atribui a eles os seus significados, no meu ponto de vista. Reitero que cada imagem visual escolhida por mim confere um valor de signo para a minha experiência. As fotografias expostas no projeto são signos pessoais que, através da minha reflexão sobre eles criam uma fluência de informações variadas que se conectam compondo uma narrativa.

A noção de que “Uma idéia pode ser signo de outra não somente porque entre elas pode estabelecer-se um liame de representação, mas porque essa representação pode sempre se representar no interior da idéia que representa.” (Foucault 1966, 88) remete-me, por exemplo, a noção da mitologia incorporar o ideal de beleza a uma figura (Afrodite para a mitologia grega e Vênus para a mitologia romana) que se expressa através de um corpo humanoide, embora a sua visualização seja sempre uma imagem mental, ou Image, que cada um elabora ao pensar nisso. O que pretendo dizer é que embora individualmente seja possível compor uma Picture (desenho, fotografia, escultura, ou qualquer materialização palpável desse ideal), a Image existirá sempre independentemente de um objeto ou imagem visual que a represente [5].

Ouso afirmar que o signo da Vênus/Afrodite [6] existirá, como imagem mental, enquanto houver a possibilidade de comunicar verbalmente o seu significado. É válido ressaltar que essa é uma exemplificação de uma ideia que pode ser signo de outra, assim como sugere Foucault. Aqui nota-se a ideia de beleza representada por uma figura humanoide também ideal.

Por outro lado, existe uma outra forma de evocar o ideal da beleza sem ser com construções visuais (desenho, fotografia, escultura, etc.) ou a própria descrição oral dele. Esse signo refere-se ao texto e são as próprias palavras Vênus ou Afrodite. Se forem apresentadas a uma pessoa que conheça o seu conteúdo, cada uma delas, enquanto composição de caracteres relativos a um alfabeto compreensível pelo leitor, remontam ao mesmo lugar: a ideia de beleza como uma figura feminina e humanoide [7].

Com isso, relembro a importância do texto para a amplificação da imagem, num sentido em que, assim como Roland Barthes alega,

 

“(…) o texto constitui uma mensagem parasita, destinada a conotar a imagem, isto é, a ‘insuflar-lhe’ um ou vários significados segundos. Por outras palavras, e é uma inversão histórica importante, a imagem já não ilustra a palavra; é a palavra que, estruturalmente, é parasita da imagem; (…) antigamente, a imagem ilustrava o texto (tornava-o mais claro); hoje, o texto sobrecarrega a imagem, confere-lhe uma cultura, uma moral, uma imaginação; antigamente, havia redução do texto à imagem, hoje há amplificação da imagem ao texto: a conotação já não é vivida senão como a ressonância natural da denotação fundamental constituída pela analogia fotográfica;” (Barthes 1982, 21)


A fala de Barthes reafirma o uso do texto como fomentador da imagem visual nessa narrativa. Na verdade, a sua contribuição atenta-me ainda à situação das três imagens das Vênus (ver Quadro 7), que são todas símbolos do ideal de beleza, se vistas excluídas da narrativa (ou somente no Quadro 7). Como já disse, individualizando cada uma das partes do tríptico e relacionando-as com outros momentos do projeto, só farão sentido se descritas por mim com o texto da solução audiovisual. Dessa forma sou capaz de insuflar outros significados às fotografias (Barthes 1982), tornando-as signos pessoais e, consequentemente, não universais de um ideal pressuposto.


Quadro 7 [8]


Quando alinho lado a lado as três imagens das Vênus, é representada em todas as imagens a mesma ideia, porém, com forma, representação e materiais diversos, embora sejam expressas neste contexto enquanto imagem digital das imagens originais. No meu discurso, quando narro o Quadro 7, está presente a referência a elas como signos do ideal de beleza e amor, assim como consta na história da mitologia grega e romana, embora cada uma dessas fotografias, fora desse contexto, ganhe outros significados para a narrativa.

É válido ressaltar que, nessa fase da análise que descrevi anteriormente, onde sinalizo a existência de três representações visuais distintas da mesma ideia de Vênus enquanto símbolo do amor e beleza, mesmo que as fotografias sejam ressonâncias de signos pré existentes a execução delas, ainda transmitem, mesmo que afastando-se do objeto original, o signo ao qual referem-se: aqui a fotografia é ferramenta tradutora de documentação e ilustração daquilo que estou a referir.

Ainda sobre a imagem visual no projeto (e no Quadro 7 especificamente) ser entendida como um signo dependente do significado que eu o atribuo por meio de um texto, preciso recorrer à seguinte fala de Foucault:


“Se o signo é a pura e simples ligação de um significante com um significado (ligação que é arbitrária ou não, voluntária ou imposta, individual ou coletiva), de todo modo a relação só pode ser estabelecida no elemento geral da representação: o significante e o significado só são ligados na medida em que um e outro são (ou foram ou podem ser) representados e em que um representa atualmente o outro.” (Foucault 1966, 91)


Pelo que entendo da fala do autor posso afirmar que, no meu projeto integral, as imagens não vivem sem o texto e vice-versa. Nesse caso, os signos fotográficos só são entendidos corretamente com a visualização deles síncrona à audição da narrativa textual.

No caso do Quadro 7, a única forma dos espectadores perceberem corretamente a experiência sugerida é assistindo-o, na ordem predefinida, com as outras partes do projeto. Para haver a leitura correta das imagens nele, é indispensável ouvir a narração proposta, como já foi dito. Porém, assistir ao Quadro 7 isolado, mesmo que com a narração simultânea às fotografias daquela parte, não é suficiente para a compreensão da sua complexidade enquanto membro de um corpo.


Conclusão


Na composição do projeto integral, para traduzir o texto que escrevi numa comunicação oral, precisei decifrar o seu conteúdo verbal. Em sintonia com a minha narração apresentei as fotografias as quais ela fazia referência. A primeira observação a ser feita aqui é que essas imagens seriam Pictures caso não viessem acompanhadas pela narrativa que atribui significados pessoais a elas. A imagem textual, nesse enquadramento, age como incitador da imagem visual.

Assim como já foi mencionado anteriormente, ao analisar o projeto na sua totalidade, é possível concluir que as imagens fotográficas presentes nele são dependentes do texto que as acompanha para que haja a migração da compreensão do seu significado literal (Pictures) para o seu entendimento enquanto Images, ou imagens mentais.

Também é possível dizer que as imagens fotográficas não são as únicas a serem lidas nesse projeto como imagens mentais (Image). Para Mitchell,


“(…) o que as palavras significam não são ao menos nossos velhos amigos, as ‘imagens mentais’ que nos foram impressas pela experiência dos objetos. (…) Uma palavra é uma imagem de uma ideia, e uma ideia é uma imagem de uma coisa, uma cadeia de representação que pode ser representada pela adição de outro link ao esboço do modelo empírico de cognição.” (Mitchell 1984, 41)


Em concordância ao que o autor alega, no Quadro 7 desenvolvo a noção de que o signo da Vênus/Afrodite (ou a ideia de beleza como uma figura feminina e humanoide) existirá, como imagem mental (ou Image), enquanto for possível expô-lo através de comunicação visual, oral ou escrita [9]. E aqui aproveito para comentar que, para além de uma imagem mental, a escrita também pode ser entendida como uma forma de ilustração, o que tornaria as palavras, consequentemente, uma espécie de figura enigmática plural.

No contexto do projeto global, a “imagem falada” descreve a relação que busco entre as imagens visuais, utilizadas enquanto signos, e os seus significados expostos através da narrativa. Ou seja, a “imagem falada” é a expressão que solda o elo entre o visual e o textual compondo uma única imagem final, capaz de ser compreendida apenas na sua totalidade.

Nesse sentido, não é possível afirmar que o estudo de caso do Quadro 7 é um exemplo de “imagem falada”. Se o Quadro 7 fosse assistido isolado, mesmo que com a minha descrição textual simultânea referente àquele trecho, provavelmente não faria sentido. Alargando a especulação, se esse quadro fosse apresentado somente visualmente, sem a componente narrativa, a probabilidade de leitura dos espectadores seria ainda mais vasta e, talvez, mais afastada do que aquelas imagens pretendem, de fato, falar no meu ponto de vista.

No excerto do capítulo “Na caverna de Platão” do livro “Sobre Fotografia”, Susan Sontag alega que


“A foto em um livro é, obviamente, a imagem de uma imagem. (…) O filme Si j'avais quatre dromadares (1966), de Chris Maker [sic], uma reflexão argutamente orquestrada sobre fotos de todos os tipos e temas, sugere um modo mais sutil e mais rigoroso de enfeixar (e ampliar) fotos. Tanto a ordem como o tempo exato para olhar cada foto são impostos; e há um ganho em termos de legibilidade visual e impacto emocional. Mas fotos transcritas em um filme deixam de ser objetos colecionáveis, como ainda são quando oferecidas em livros.” (Sontag 1977, 15)


Da mesma forma que Susan Sontag descreve o filme de Chris Marker, entendo a minha solução narrativa ao projeto como uma orquestração semelhante, onde um ritmo é ditado (o texto) para contar a minha história pessoal através de imagens (fotografias).

Enfim, é possível concluir que a solução cinematográfica representante da totalidade do projeto é, paradoxalmente, além de uma nova imagem autônoma, dependente da relação simbiótica da narrativa que conecta uma série de fatos correlacionados com as imagens visuais não necessariamente ilustrativas. Esse projeto será um corpo independente, uno, somente se os seus membros visuais e textuais (também sonoros) forem assistidos, em sintonia e integralmente, por quem esteja apto a decodificar essas duas tipologias distintas de comunicação.


Referências


Almasio, Giuliana. 2021. Projeto audiovisual de Giuliana Almasio. Online no YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=5IMYwYmI9Cw


Barthes, Roland. 1982. O óbvio e o obtuso. Lisboa: Edições 70.


Figura do Twitter de British Museum, “A Rainha da Noite ou Ishtar, a deusa do amor sexual e da guerra - Babilônia (c. 1792-1750 a.C.)”. Acedido em 08 de fevereiro de 2022. https://twitter.com/britishmuseum/status/1099610026937905152/photo/1


Figura de Lucas Cranach. 1526. “Adão e Eva”. Acedido em 24 de janeiro de 2022. https://silverandexact.files.wordpress.com/2011/01/adam-and-eve-lucas-cranach-the-elder-1526.jpg


Figura de autoria desconhecida de acervo familiar. 1991. Fotografia digital de uma fotografia analógica a cores da minha mãe (Ana Paula Moreira de Castro) fantasiada no carnaval do Rio de Janeiro.


Foucault, Michel. 1966. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes.


López-Pedraza, Rafael. 2012. Ártemis e Hipólito: Mito e tragédia. Coleção Reflexões Junguianas. Petrópolis: Editora Vozes. 


Mitchell, W.J.T. 1984. “O que é uma imagem? (What's an image?)”. Revista Espaço, Julho - Dezembro 2019. http://dx.doi.org/10.20395/re.v0i52.614


Sontag, Susan. 1977. Sobre Fotografia. São Paulo: Companhia das Letras


Vieira, Joaquim Pinto. “História pessoal da imagem”. Texto em formato digital, 9 de julho de 2016.

[1] Da esquerda para a direita: A Rainha da Noite ou Ishtar, a deusa do amor sexual e da guerra - Babilônia (c. 1792-1750 a.C.); Fragmento de Adão e Eva, Lucas Cranach, o velho (1526); Fotografia digital de uma fotografia analógica a cores da minha mãe (Ana Paula Moreira de Castro) fantasiada no carnaval do Rio de Janeiro, Acervo familiar, (1991).

[2] A psicologia dos arquétipos é um assunto que descobri nessa investigação. A minha maior surpresa foi descobrir que Carl G. Jung havia delimitado quatro arquétipos femininos de personificações simbólicas, oriundas da tradição pagã e judaico-cristã. Adivinhem? Uma delas é a Eva. As outras são: Helena, Maria e Sofia (López-Pedraza 2012, 14).

[3] A partir de agora, todas as vezes que o termo “imagem falada” for abordado, estarei a referenciar o seu significado cunhado por Mitchell (1984) em “O que é uma imagem?”.

[4] A partir de agora, todas as vezes que os termos Picture ou Image forem abordados, estarei a referenciar o seu significado cunhado por Joaquim Pinto Vieira (2016) em “História pessoal da imagem”.

[5] No início de “Contextualizando a contextualização” eu digo que “A Eva que viu a uva não é aquela que viu a maçã. A Eva que viu a uva pode ser para cada pessoa uma coisa diferente, mas a Eva que viu a maçã, não.” Aqui estou a dizer que a Eva que viu a uva, saída da costela de Paulo Freire, vem acompanhada de uma complexidade para além do mito da criação. Ela torna-se o sujeito da frase, um nome, uma pessoa. A Eva que viu a maçã traz consigo mais simbologia na frase, a maçã, que a aproxima do mito judaico-cristão. Essa Eva, compreendida como figura mitológica, possui um significado inerente, embora seja a construção da sua imagem mental seja independente para cada pessoa.

[6] Assim como o da Eva!

[7] Com a palavra Eva normalmente vem associado o mito da criação judaico-cristão, o pecado original, o consumo do fruto proibido e a noção da figura feminina tentadora, por exemplo.

[8] Da esquerda para a direita: Díptico feito com duas fotografias analógicas de Giuliana Almasio; Fotografia da estatueta da Vênus de Willendorf; Fotografia digital da pintura “O nascimento de Vênus” (1483) de Sandro Botticelli.

[9] Aqui retomo o paralelismo com o signo da Eva.

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