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Temporada 1 : Eva

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T1 : Eva

Eva viu a uva, mas comeu a maçã

Por: Mariana Morais 17/04/2023

A Eva que comeu a maçã é uma alegoria, um arquétipo que representa o pecado original, tentação, desejo, vergonha. Uma alegoria, por sua vez, é uma figura retórica criada a partir da materialização de um conceito abstrato. Há quem ache que o motivo desta figura retórica e arcaica ter uma forma humana com mamas e vulva é intervenção divina ou até má sorte, mas é mesmo um produto de um patriarcado hebraico-cristão milenar. Ora, se a Eva é só uma estória, nunca existiu, como esta narrativa milenar parece ainda tão relevante nos dias de hoje? Este ensaio não pretende se aprofundar nas origens históricas de Eva, mas refletir sobre a representação dos corpos femininos e as narrativas associadas a estes através desta alegoria milenar.

A minha inquietação com a representação dos corpos femininos já vem de alguns anos. O projeto artístico Mulheres Sem Cabeça e Outras Ocorrências: Roteiros para a Arte Pública do Porto (Morais, 2019) nasceu em 2018 no âmbito do Mestrado em Arte e Design para o Espaço Público (MADEP) da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e permanece em constante andamento. Este projeto problematiza a representação do feminino, assim como a participação das mulheres artistas na arte pública da Cidade do Porto a partir da análise de esculturas, monumentos e estátuas, ou seja, objetos permanentes instalados na cidade desde 1818.

Estudar as maneiras como os corpos femininos são representados na arte pública permanente me permitiu perceber alguns dos aspectos históricos, culturais e sociais em que as mulheres são enquadradas. Nenhuma representação é esvaziada de significado. Há sempre um contexto, uma narrativa e um motivo por trás de cada representação que condicionam a percepção da sociedade. Segundo a cientista social Corinne Squire (2014), uma narrativa consiste em uma sucessão de signos “com sentidos sociais, culturais e/ou particulares, e não gerais”. Ou seja, as narrativas não têm vigor universal, cada pessoa ou grupo de pessoas podem perceber símbolos de modo distinto, dependendo da construção social, cultural e histórica de cada indivíduo ou grupo de indivíduos. No caso da Eva, a forte presença do cristianismo no mundo ocidental deixou pouco espaço para revisitar este tema ao longo dos séculos e agora tem vindo a ser explorado, reinterpretado e questionado pela cultura pop, como a performance de Britney Spears no MTV Video Music Awards em 2001, em que ela carrega uma cobra em referência à estória bíblica de Adão e Eva (CNN, 2019).


À esquerda, Britney Spears carregando uma cobra em referência bíblica, 2001. Fonte: Scott Gries/Getty Images North America. À direita, Pintura "Eve Tempted", c.1877, de John Roddam Spencer Stanhope (1829–1908).


No contexto da arte pública permanente no Porto, há uma grande incidência de esculturas, estátuas e monumentos que se materializam seguindo um modelo essencialista. Este modelo promove uma dualidade dos conceitos de identidade de gênero, representando duas esferas identitárias que parecem não dialogar ou se justapor, onde o masculino está em oposição ao feminino. O masculino é representado como forte, viril, dominador, ativo e o feminino, como frágil, submisso, sensível, passivo constituindo uma relação dicotómica e excludente.

O que me parece curioso no caso de Eva-que-comeu-o-fruto-proibido-e-de-Adão-que-foi-convencido-por-ela é que historicamente Adão não foi responsabilizado por ter comido a maçã, mesmo sabendo que isso lhe causaria a expulsão do Jardim do Éden. Mas por que esta narrativa culpabiliza somente Eva? Neste contexto específico, a figura masculina, Adão, assume um papel frágil, passivo e isento de qualquer responsabilidade, à medida que a figura feminina, Eva, ocupa uma posição dominante e coercitiva – apesar de ter sido também influenciada pelo diabo, na figura da serpente – e assim inteiramente responsável pelo “pecado original”, pela condenação do seu companheiro alegórico e também de todas as outras pessoas (desta vez, não-alegóricas) que seguiram.

Colagem feita a partir da pintura “Adão e Eva" (1526) de Lucas Cranach, o Velho (1472–1553). Autora: Mariana Morais


Como apontado no início deste ensaio, a alegoria da Eva é comumente associada à sedução, tentação, sexualidade e desejo. Foi ao comer a “maçã proibida” que o casal percebeu que estava nu e se envergonhou com isto. Ora, esta alegoria do pecado original poderia tomar qualquer forma, mas não é por acaso que é uma mulher. De acordo com a teórica da arte Hilary Robinson (2015), o que se é representado nas obras de arte – mas não só – tem mais a ver com o que está enraizado na formação da identidade e necessidades psíquico-sexuais do/a autor/a da representação, do que com as representações em si. A teóloga feminista Mary McClintock Fulkerson aponta em seu texto “Sexismo como o pecado original” (1991) como o cristianismo tradicionalmente associa as mulheres ao pecado, sendo o sexismo uma ferramenta de controle sobre os corpos femininos. Ou seja, utilizar-se de uma alegoria feminina para encabeçar o pecado original não parece ser apenas uma coincidência.

A escritora Marina Warner discute os impactos da alegorização nos corpos femininos em seu livro em Monuments and Maidens (1996). Como o título do livro sugere, a monumentalização do corpo das mulheres em alegorias (como a República Francesa Marianne e a Estátua da Liberdade, por exemplo) pouco se relaciona com as “mulheres comuns”. Para melhor explicar este fenômeno, Warner usa o termo isomorfia (do latim, iso = igual; morfa = forma), que se refere à similaridade física entre pessoas reais e metáforas visuais que não condizem com a realidade. Warner aponta que as mulheres e os corpos femininos “reais" passam por um processo de despersonalização, onde as alegorias são tidas como representações universais que retratam todos estas pessoas, enquanto as representações masculinas se preocupam mais com a individualidade e identidade de cada homem “real". Em outras palavras, o sucedido com Adão, de ter sido influenciável e “enganado" diz respeito somente à personalidade de Adão e não a todos os homens; já os traços “provocantes" e “tentadores” de Eva são atribuídos a todas as mulheres simplesmente pela circunstância de compartilharem o mesmo gênero.

Como forma de evidenciar e questionar o pesado legado histórico desta narrativa associada à alegoria da Eva, a primeira mulher e também autora do primeiro pecado, realizei colagens a partir de imagens de pinturas dos séculos XVI e XVII que a representam. A escolha das imagens para fazer as colagens foi feita de maneira um tanto intuitiva, por outro lado, penso que a rigidez e impersonalidade das poses se assemelham às das esculturas de arte pública que pesquiso, podendo ser este um fator que me levou a escolher estas pinturas. As colagens são um convite a estas reflexões e às minhas inquietações. Buscam enfatizar o absurdo e as contradições desta narrativa milenar na atualidade. Esta nova e breve narrativa põe em causa, através do humor, questões como as imposições sociais, identidade de gênero e a fetichização do corpo feminino. É talvez uma contribuição para construir um espaço de significação mais abrangente a partir do passado para o presente. Indaguei sobre cada Eva representada, a versão dela sobre a narrativa em que estava inserida: e se esta estória fosse contada por ti?

Colagens feita a partir da pintura “Adam and Eve in Paradise" c.1629 de Johann König (1586–1642). Autora: Mariana Morais


Caro Adão,



Espero que esteja bem. Como sabe, eu não sou uma pessoa de muitas palavras, mas senti a necessidade de lhe escrever algumas linhas, agora que temos tempo e distância suficiente entre nós.

Eu não pedi nada disso. Um dia, abri os olhos e estava aí com você. Não lembro como fui parar aí, mas aquela história de eu ter vindo da sua costela não convence. É verdade que “nascemos" há pouco tempo e por isso não temos muitas vivências, mas com o pouco que já sabemos… As circunstâncias do meu "surgimento" me parecem problemáticas em vários níveis. Primeiro: consentimento; você estava dormindo, incapaz de decidir se queria ou não perder uma costela. Você não se sente violado? Segundo: o pretexto era que você se sentia solitário, mas uma pessoa não pode ser tudo para a outra; temos de aprender a ser feliz sozinhos para depois ser feliz com outras pessoas.

Por que tenho de ser eu a te fazer companhia? Não me leve a mal, mas sou daquelas pessoas que preferem os animais às pessoas. É mesmo má sorte. Você deve ter percebido que às vezes eu sumia – era porque eu não me sinto à vontade com você. Este jardim é pequeno demais para nós dois, mesmo com todos os bichinhos, eu decidi ir embora. A única maneira de sair, era comendo a maçã “proibida" da Árvore do Conhecimento. A serpente, que me fazia bastante companhia, veio comigo, portanto, não a procure também. Por que chamar uma árvore assim e depois dizer que não podemos dela comer? Não parece abusivo?

Quando eu estava decidida a finalmente comer a maçã e você apareceu, você agiu como nunca tinha visto antes: estava curioso em saber de mim, meus interesses, minhas motivações, pela primeira vez desde que apareci no Éden. Tivemos uma tarde mesmo boa e pensei que talvez pudesse esperar mais um pouco e comer a maçã outro dia. Mas aí finalmente falamos das maçãs e lhe pareceu uma boa ideia também comê-las. Comemos algumas e dali pensei que poderia nascer uma boa amizade. Mas isso não durou muito, porque quando chegou a hora de finalmente sermos expulsos, na esperança de ficar no jardim, você me culpabilizou pela maçã que você comeu. Por que tem de ser eu a completa responsável e culpada pela maçã que você quis comer? Não insisti, não coloquei a maçã na sua boca enquanto dormia, a responsabilidade do pecado original não é inteiramente minha e você sabe disso.

De qualquer maneira, ouvi dizer em algum lado que “toda publicidade é boa publicidade” e percebi uma oportunidade de empreender a partir do pecado original: criei “A Receita Original” da torta de maçã "proibida". Acontece que me descobri amante da confeitaria e da pastelaria e decidi empreender nisso. Sou pioneira! Tem sido um sucesso! Descobri que todo mundo gosta de coisas taxadas de “proibidas", então vem gente de todo lado só para experimentar a minha receita. O meu negócio está expandindo e nada disso teria acontecido sem você. Por isso, o meu muito obrigada! Passa um dia por aqui para experimentar a torta – é irresistível!


Beijinhos,

Eva


Colagem feita a partir da pintura “Adam and Eve in Paradise" c.1629 de Johann König (1586–1642). Autora: Mariana Morais



Referências


CNN. 2019. Decoding depictions of Eve in art and pop culture. https://edition.cnn.com/style/article/eve-art-pop-culture-artsy/index.html


Fulkerson, Mary McClintock. 1991. Sexism as Original Sin: Developing a Theacentric Discourse. In Journal of the American Academy of Religion, Vol. 59, No. 4, pp. 653-675. http://www.jstor.org/stable/1465528


Morais, Mariana. 2019. Mulheres sem Cabeça e Outras Ocorrências: Roteiros para a Arte Pública do Porto. Dissertação. Universidade do Porto, Porto. https://hdl.handle.net/10216/123566


Robinson, Hilary (Ed.). 2015. Feminism-Art-Theory: an anthology 1968-2014. Oxford: Wiley Blackwell.


Warner, Marina. 1996. Monuments and maidens: the allegory of female form. New York: Vintage Books.


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