Da costela nasce Eva. Mas porquê da costela?
Sarah Roth Lieberman, em “The Eve Motif in Ancient Near Eastern and Classical Greek Sources”, sugere que talvez a costela não indique uma secundarização, mas que aponte para um duplo sentido; nota que a palavra “ti” tanto pode significar “costela” como “dar vida”. Na Mesopotâmia, a deusa Ninti (“senhora da costela” ou “senhora que concede a vida”, é criada pela deusa Ninhursag para curar a costela de Enki, o seu parceiro.

Não particularmente nobre, a costela elicita uma fisionomia grotesca quando isolada. Qualquer parte do corpo é grotesca quando isolada, suponho. Mas a costela é osso, é o que permanece quando a carne seca e desaparece, e permanece na mesma forma quando o corpo que a acolhe morre. “Body is reality”, pisca um televisor no filme Crimes of the Future (2022) de David Cronenberg. Neste filme, os corpos humanos são policiados por um departamento do governo chamado “Registo Nacional de Órgãos”. A nossa materialidade determina-nos e limita-nos.
Nos filmes de Cronenberg as personagens parecem ter uma reverência quase-religiosa em relação aos artefactos grotescos e semi-biológicos com os quais operam. Quando não são feitos de carne mesmo assim adquirem construções sinuosas, configurações orgânicas que permitem uma simbiose com o corpo humano ou até um espelhar das suas características.
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A narrativa da costela acaba por descrever o ideal para uma relação: uma derivação em que a mulher é subordinada do homem. Com esta narrativa, criou-se uma visão popular que avisa contra os perigos da manipulação da mulher. São frequentes as menções no Antigo Testamento a “artimanhas e enganos de prostitutas”, sugerindo que os homens de Canaã temiam susceptibilidade aos encantos das mulheres quase tanto quanto os homens da contemporaneidade. Nestes textos menciona-se também o conceito da mulher “devassa” em contraposição à mulher “boa”, que evita andar na rua à noite (“No crepúsculo, à noite, na noite negra e escura", um lugar que uma boa mulher evitaria.”)
Neste raciocínio, sendo a mulher inerentemente provocadora e manipuladora, a sua subjugação ao homem é necessária para que se mantenha o status quo, reverberando em argumentos de posse e controlo.

Curiosamente, faz sentido que Eva seja criada de algo que não é 100% matéria orgânica, visto que tanto ela como as suas descendentes bíblicas não retêm controlo sobre a sua fisicalidade. Os seus corpos servem a Deus, e através da gestação talvez consigam atingir a salvação, ou pelo menos reverter o castigo de Eva. No Genesis, por exemplo, é Deus quem impõe e levanta a maldição da infertilidade, e é ele quem controla a natureza e todos os seres vivos. As várias mulheres bíblicas que falharam ao reproduzir apenas ganham de novo essa capacidade ao regatearem com Deus, oferecendo-lhe ora a vida dos seus filhos em dedicação a ele ou o corpo de uma criada para que as substitua na gravidez.

Ao falar de autonomia corporal, quando debatida a partir de um contexto bíblico, pode parecer redundante dizer que é uma camada inexistente na vida das mulheres bíblicas. Ora, trago esse contexto de certa forma para evidenciar como até na atualidade, o livre-arbítrio sobre o nosso corpo não pode ser tomado como garantido. Nos Estados Unidos aprovam-se leis que impõem um controlo arcaico e desumano sobre os corpos femininos, transgénero e não-binários. Ademais, antes que pensemos que os EUA são “outro mundo”, também em Portugal a autodeterminação não é, na prática, garantida. Acessos a cuidados de saúde para pessoas trans são dificultados, as esperas para procedimentos médicos são de anos, e a formação de medicina geral no assunto é praticamente inexistente. Quanto ao exercício da autonomia corporal, também o acesso à interrupção voluntária da gravidez é limitado em Portugal.

Ao longo da história dos mitos, outras figuras de aparência feminina se foram associando à fisicalidade, tomando o controlo dos seus corpos, e, claro, vivendo os castigos que daí advém. Na Idade Média, uma nova figura é criada, num texto folclórico intitulado Alfabeto de Sirach. Aí surge a figura de Lilith, que se diz ter sido nascido ao mesmo tempo e da mesma argila que Adão. Lilith apresenta-se como um demónio que rapta bebés na noite – o oposto diametral de Maria, a mãe; Lilith a que retira a vida e rapta os inocentes – e é sexualmente devassa. Sumariamente, bastante mais apelativa em termos de mitologia do que Eva. Diz-se que Lilith é um demónio, a primeira mulher de Adão, e que se recusou submeter-se ao marido, abandonando o Jardim do Éden de livre vontade. Lilith goza de uma popularidade substancial – em filmes, livros, e na cultura pop em geral, normalmente associada também à figura do vampiro – e ainda hoje é símbolo de dissidência e de autodeterminação.
Da mesma forma, também Lamia – a figura da mitologia grega que inspirou o poeta inglês John Keats a escrever, em 1820, o poema “Lamia”, dois anos depois da publicação de Frankenstein, de Mary Shelley – faz algo que não deve. Lamia relacionou-se e teve filhos com Zeus quando este era casado com Hera, o que fez com que Hera lhe raptasse os filhos; Lamia foi levada à loucura e começou a devorar crianças, – naturalmente – sedimentando-a, então, como alguém categoricamente má. E naturalmente, Lamia, no processo de se desvirtuar, tornou-se, também fisicamente grotesca; sofrendo de insónias, representada de olhos constantemente abertos, diz-se, a pensar nos filhos que perdeu. À semelhança das sereias, Lamia tornou-se numa figura conotada com a manipulação de homens ingénuos. Sinuosa, e com tanto características de serpente como de mulher, Lamia é representada como um monstro enganador, comendo bebés diretamente da barriga das mães, e ao mesmo tempo ludibriando quem puder com o seu encanto.
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Tornou-se também popular representar a própria serpente da cena do Éden com cabeça de mulher, uma convenção da época que encapsula a impossível Eva, ao mesmo tempo tentadora e vítima.






Particularmente aliciantes são as representações da serpente que não se cingem à biologia e combinam características humanas com outras mitológicas, como na serpente de Hugo Van der Goes que é um ser meio humano, meio outra coisa qualquer, de sobrancelhas franzidas – uma expressão menos que delicada – e membros anfíbios e duas tranças em riste, emulando os cornos do Diabo. A construção de marcadores visuais como estes faz uma clara definição entre o eu – que vemos refletido em Adão e Eva – e o outro, uma estratégia que ainda hoje é utilizada no espaço mediático.
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Nas representações de Eva que fui recolhendo, a sua expressão varia ligeiramente entre calma, aborrecimento e leve curiosidade.
Lembro-me este trecho da Hilda Hilst: “E por que eu teria ido à igreja aquela manhã? Porque apesar do meu roteiro de fornicações eu também tinha momentos de tédio e vazio.” Gosto dela porque assume uma contradição inerente: que a personagem que mantém um “roteiro de fornicações” escolha a igreja como destino num momento de tédio. Não necessariamente para se redimir. Por momentos imaginamos então a igreja imaginada como um local destituído de carga moral. Apenas destino.

Referências
Eve and the Identity of Women: 5. Eve and the Serpent.
http://witcombe.sbc.edu/eve-women/5eveserpent.html. Acedido em janeiro de 2023.
Lieberman, Sarah Roth. 1975. The Eve Motif in Ancient Near Eastern and Classical Greek Sources. Boston University.
Norris, Pamela. 1999. Eve: A Biography.
TIFF. 2014. David Cronenberg: Virtual Exhibition.
http://cronenbergmuseum.tiff.net/accueil-home-eng.html. Acedido em janeiro de 2023.