Estou a ver “Autour de Jeanne Dielmann” [1], um documentário sobre as filmagens do filme Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles (1975), de Chantal Akerman, e vou tirando notas. Começa com Delphine Seyrig, a atriz principal do filme, e Akerman a discutirem acesamente sobre a razão de ser de uma cena do filme; a atriz cai-lhe em cima, fazendo-lhe perguntas incisivas sobre a sua intenção na ação da personagem. Quando Seyrig lhe diz “Isso não é suficiente. Não é uma explicação. Explica-me porque é que estás a usar planos longos.”, e Akerman lhe responde que não sabe, Seyrig riposta assertivamente “Pensa nisso”.
É impactante. Akerman teria 24 ou 25 anos, a filmar o seu primeiro filme, e Seyrig era já uma atriz de renome, tendo protagonizado filmes de Alain Resnais, François Truffaut, Luis Buñuel, Marguerite Duras. Impressiona-me vê-las a discutir, sem melindre, numa troca de palavras que à primeira vista se diria uma altercação.
Agrada-me a sua cumplicidade, pois nenhuma parece demasiado ofendida nem afetada pelos retruques da outra, sobretudo os de Seyrig, que procura compreender a sua personagem e de certa forma se sente limitada pelas instruções de Akerman.
Só consegui compreender que era de facto cumplicidade assim que vi Akerman a olhar para o vazio, embrenhada em pensamento; o comentário da atriz não era um ataque, mas uma ferramenta de trabalho. O entrançado de silvas que Seyrig enfrentava, e que trazia a Akerman para desfazer, fazia parte do seu método e forma de se expressar, que por vezes no documentário vejo passar pela incompreensão e impaciência, mas que absolutamente partia de um ímpeto de clarificar a sua performance.
Mais tarde vim a saber que o papel de Jeanne Dielman foi um dos mais desafiantes da carreira de Seyrig, mas que certamente os preferia assim. No trailer de Delphine and Carole (2018), um documentário sobre Delphine Seyrig e Carole Roussopoulos, Seyrig manifesta: “Se és feminista e atriz, tens praticamente de parar de trabalhar se só aceitares papéis que concedem uma imagem feminista à mulher. Terias de parar de ser atriz pois tais papéis não existem.” [2]
Em “Autour de Jeanne Dielmann”, dirigindo-se à câmara, Seyrig lista alguns estereótipos das personagens femininas que vê no cinema: as mães, as prostitutas, mulheres más e ninfas, num leque muito limitado de representação; e como de uma forma ou de outra, estruturalmente, as mulheres estão cientes de que estão predestinadas a preencher um desses papéis.
Seyrig foi uma grande figura no movimento feminista em França nos anos 60, 70 e 80. Com Carole Roussopoulos descobriu a câmara Sony Portapak, uma câmara portátil que lhe permitiu registar a violência estrutural na representação das mulheres no cinema e, nesse sentido, apontar algumas das falhas na sua indústria. Realizou três filmes e com Carole e a tradutora Ioana Wieder criou o coletivo de vídeo Les Insoumuses (insoumise = desobediente, muses = musas). Nos seus vídeos – alguns disponíveis no arquivo do Centre audiovisuel Simone de Beauvoir [3], fundado por Seyrig, Roussopoulos e Wieder – abordavam o papel das mulheres nos media, a luta laboral, e direitos reprodutivos e sexuais. Descobri que chegaram até a fazer uma adaptação [4] do SCUM Manifesto, um texto radical de Valerie Solanas – escritora americana irascível que só viu o seu trabalho ganhar reconhecimento após ter dado um tiro a Andy Warhol em 1968 – no qual profere:
“Sendo a vida nesta sociedade, na melhor das hipóteses, um aborrecimento total e não sendo nenhum aspeto da sociedade relevante de todo para as mulheres, resta apenas às mulheres com desejo de adrenalina [5], de espírito cívico, responsáveis, derrubar o governo, eliminar o sistema monetário, instituir a automação total e eliminar o sexo masculino.”
Na adaptação de Seyrig e Roussopoulos, de 1976, o SCUM Manifesto é lido sobre uma mesa por Seyrig, ditando-o a Roussopoulos, que o dactilografa. O manifesto – e por alguma razão o é manifesto e não um livro de teoria – é incendiário, provocando e invertendo o diálogo misógino corrente sobre si mesmo, imaginando um mundo onde o mesmo é proferido sobre os homens. Conheço-o em fragmentos, vejo-o como uma sátira levada ao extremo – de uma masculinidade desde Adão assumida como default e de ideias feitas sobre o papel da mulher na sociedade americana – e corajoso, por vezes mais para o seu mal do que para o seu bem, ensaiando uma tentativa de reverter os papéis de género que fica presa no binarismo. No entanto, Solanas propõe, encimando tudo o resto, uma perspetiva anarquista, apelando à eliminação do capitalismo como sistema de subjugação, e a destruição do “governo, das leis e dos líderes”, culminando na sua tese:
“O que libertará as mulheres… do controlo masculino, é a eliminação total do sistema dinheiro-trabalho, não a obtenção de igualdade económica dentro dele”.
Seyrig e Roussopoulos dedicam-se à leitura do texto tendo em segundo plano uma televisão ligada, a transmitir notícias, com imagens do exército e generais a falarem sobre armamento e defesa, navios, tanques e aviões militares que, pontuando o manifesto, vão mostrando o plano de fundo da Guerra Fria.
Carole Roussopoulos, diz-se, foi apenas a segunda pessoa em França a adquirir uma câmara Sony Portapak – a primeira sendo Godard – e dedicou a sua vida ao documentário militante, criando, com o seu marido Paul, o coletivo Video Out, começando por filmar Jean Genet numa declaração [6] de apoio a Angela Davis após a sua detenção pelo FBI em 1970.
Vi recentemente Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles, levada pelo burburinho à volta dos resultados da sondagem dos melhores filmes de sempre da revista Sight and Sound, na qual mereceu o primeiro lugar, destronando filmes sedimentados no topo há décadas como Vertigo ou Citizen Kane, – continua a ser revelador que um filme lento e contemplativo, seguindo o dia-a-dia de uma mulher em casa, tome de assalto esta lista – um filme que contraria todas as tendências do cinema comercial contemporâneo. É um filme que parece ser cronometrado, feito de pequeníssimas ações, executadas roboticamente, já internalizadas, um filme que comunica tanto através do que está a ser representado como sobre o que não está, o que ocupa os espaços vazios.
Ao ver o documentário sobre o filme, que mostra os bastidores das filmagens, gostei particularmente de vê-las a definir detalhes caracterizantes do filme no momento, e ver a coisa a construir-se, lentamente, do caos. O processo não foi linear, nem simples, nem monopolizado por Akerman, foi uma construção coletiva.
Referências
Ferrer, Nicole Fernandez. Carole Roussopoulos. New Media Encyclopedia.
http://www.newmedia-art.org/cgi-bin/show-oeu.php?ID=9000000000083169&LG=GBR&ALP=R&DOC=bio&NOM=Carole%20Roussopoulos. Acedido em fevereiro de 2023.
Hamilton, Marybeth. 2018. Remembering 1968: The SCUM Manifesto for the Society for Cutting up Men. Verso Books.
Les Insoumuses. Monoskop.
https://monoskop.org/Les_Insoumuses. Acedido em fevereiro de 2023.
Les Insoumuses. Institut français de Chypre
https://www.ifchypre.org/en/culture-en/cinema/780-les-insoumuses. Acedido em fevereiro de 2023.
Wall, Madeleine. 2021. No Woman Can Cook the Same Meal Twice: The Video Work of Les Insoumuses. MUBI
https://mubi.com/notebook/posts/no-woman-can-cook-the-same-meal-twice-the-video-work-of-les-insoumuses. Acedido em fevereiro de 2023.
Zeisler, Andi. 2014. Los Angeles Review of Books. Los Angeles Review of Books.